A liberdade de um aço versátil, por Roberto Segre

Uma apresentação por Roberto Segre para o livro STEEL LIFE

A utilização do aço na arquitetura está entrando no seu terceiro século de existência. A revolução estrutural começou no século XIX, nas avançadas obras de Gustav Eiffel e se consolidou em Chicago com a proliferação dos arranha-céus de escritórios no centro da cidade. Mas os elementos construtivos – vigas e colunas – ainda não tinham obtido uma significação estética, ocultos no interior das caixas de alvenaria e das fachadas decoradas. Foi Mies van der Rohe quem assumiu, elaborou e difundiu a pureza formal da estrutura de aço, que, acompanhada pela transparência do vidro, definiu a tipologia da caixa leve, horizontal e vertical, utilizada em residências e edifícios altos ao longo do século XX. Um extenso grupo de arquitetos identificou-se com o estrito racionalismo imposto pelos componentes metálicos, seriados e normalizados, produzidos industrialmente: entre outros estão Skidmore, Owings & Merrill, Craig Ellwood, I.M. Pei, Eero Saarinen, Arne Jacobsen. Mas ao mesmo tempo, se evidenciaram as possibilidades plásticas do aço que, assim como o concreto armado, permitiria a invenção de formas livres e esculturais. Os construtivistas russos foram os primeiros a associar o aço com uma nova estética de vanguarda, baseada nas imagens icônicas que identificariam o progresso do socialismo: são as fantasias utópicas de V.E. Tatlin, Ivan Leonidov e Ja. G. Chernikov.

A superação da rígida simplicidade da caixa aconteceu quando surgiram novos elementos estruturais, estabelecidos por diferenciados componentes lineares e nós de articulação que permitiram cobrir grandes vãos livres, desenvolvidos basicamente por Buckminster Fuller e Konrad Wachsmann nos Estados Unidos. A crítica ao anonimato do International Style começa nos anos cinqüenta com o New Brutalism na Inglaterra, e surge com as estruturas de aço da escola South Hunstanton de Peter & Alison Smithson. Começa aí uma experimentação plástica que se mantém até hoje, nas obras de Renzo Piano & Richard Rogers; Norman Foster; Nicholas Grimshaw; e cuja liberdade formal e estrutural pode ser percebida no início do século XXI, com as invenções de Frank Gehry, Santiago Calatrava e Herzog & de Meuron. Cabe destacar o “ninho” do estádio olímpico de Beijing em 2008 como ícone de uma renovada estética baseada na versatilidade da estrutura de aço.

Nesta dinâmica criativa se insere a obra de João Diniz. Ele pertence ao grupo de vanguarda que propôs resgatar através da arquitetura a identidade ambiental e cultural de Minas Gerais, caracterizada economicamente pela seqüência da exploração mineral, inicialmente com o ouro no período colonial, e no século vinte com o ferro e a siderurgia. Em arquitetura, esta nova identidade significava utilizar o aço em contraposição ao predomínio do concreto armado estabelecido por Oscar Niemeyer nas obras construídas no estado e em particular em Belo Horizonte.  Assim como se fala das “escolas” carioca e paulista, surgiu um movimento que identifica a “escola” mineira liderado a partir do final dos anos setenta por jovens arquitetos como Éolo Maia, Jô Vasconcellos, Humberto Serpa, Cid Horta, Álvaro Hardy e Mariza M. Coelho, Flávio Almada, Sylvio Emrich de Podestá, Gustavo Penna, João Diniz e outros. Eles rejeitaram a linguagem tecnocrática da ditadura militar e o “estilo” Niemeyer associado ao poder político de Juscelino Kubitschek; e assumiram, naquela época, o Pós-moderno como uma tendência renovadora, que facilitava a liberdade expressiva. Como membro mais jovem deste grupo, João Diniz soube, ao mesmo tempo, relacionar a sua sensibilidade aberta a outras manifestações culturais – o desenho, a fotografia, a escultura, a música e a poesia – com a versatilidade das estruturas metálicas. Nas obras apresentadas neste livro se evidencia a multiplicidade de caminhos existentes na utilização do aço.

As possibilidades esculturais dos elementos metálicos são visíveis nas peças apresentadas na Sala Especial da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em 2003, no Portal do Festival de Arte Negra e no mobiliário urbano na Rua Rio de Janeiro, que aproxima estes ensaios construtivos com a obra de Amílcar de Castro e Franz Weissmann. Por sua vez, a herança “miesiana” está presente no Vestiário do Clube Campestre e na Reitoria da Fumec; e a lembrança dos estudos de Charles e Ray Eames nos anos cinqüenta aparece no projeto da habitação experimental Casexp. O Ginásio Querubins, com o grande espaço coberto, assume os desenhos estruturais das primeiras obras de Norman Foster; assim como as Unidades Móveis de Educação Ambiental constituem uma homenagem a Buckminster Fuller.  A articulação entre formas fechadas e abertas; e o diálogo entre diferentes materiais, que permitem integrar as transparências da estrutura de aço com a solidez do concreto armado, do tijolo e da madeira, se desenvolve na escala urbana, nos edifícios Capri e Scala Workcenter; e caracteriza o conjunto das originais e criativas residências desenhadas por Diniz: a casa Eugênia, Marina, KS, Jorge e Serrana. Por último, as inovações formais e espaciais identificadoras deste novo século, com as superfícies metálicas livres e fluídas, aparecem no projeto da sede do Grupo Corpo, no Centro de Adaptação da Aeronáutica (CIAAR) e no Museu Fiat. São obras que demonstram, não somente a capacidade inventiva de João Diniz, mas ao mesmo tempo o seu desejo de entender e processar as imagens renovadoras da contemporaneidade, evidenciando a sua presença no universo mineiro, brasileiro e mundial. As teses antropofágicas de Oswald de Andrade continuam vigentes no século XXI.

Roberto Segre

Rio de Janeiro, 14 de dezembro, 2008.

ROBERTO SEGRE

Nascido em Milão, Itália (1934). Formado pela Universidade de Arquitetura e Urbanismo de Buenos Aires (1960), Doutor em Ciências e Artes pela Universidade de Havana em Cuba (1990), Doutor em Planejamento Regional e Urbano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997). Professor Titular e/ou convidado em universidades do Rio de Janeiro, Havana, Nova York, Houston, Los Angeles, Santo Domingo, e Lima. Ministrou cursos e conferências em universidades da América Latina, Estados Unidos e Europa. Recebeu vários prêmios internacionais pelos livros escritos. Tem mais de 300 ensaios publicados sobre arquitetura e urbanismo na América Latina e no Caribe; e mais de 30 livros editados sobre estes temas.

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