Archive for the ‘ diário intermitente ’ Category

A U R O R A (aos que acordam…)

BH noite foto JD

A U R O R A

 e eles foram despertados

 pelos ruídos da noite
silêncios profundos
e sonhos

 pelos sons da aurora
pássaros motores
ponteiros

 pelas ideias nascentes
dizeres futuros
caminhos

 pelo rompante lucido
invento surpresa
trabalho

pelos saberes vindouros
estudos pesquisas
próprias

    pelo sonoro afago
balada matina
andante

pela vontade ativa
pessoa desperta
batalha

e eles foram despertados

pelo súbito colapso
pulsante na pausa
fatal

pela saudade doida
vivida passada
ausente

pelas palavras da mente
duvidas desejos
e magoas

pelas ilusões vaidosas
imagens forçadas
das sombras

pela fgura cativa
espelho volátil
e falso

pelas invejas vigentes
ocultas ativas
avulsas

pelos impostos valores
forjado principio
da venda

pelas disputas fugazes
emoções tardias
e rivais

pelo apetite danoso
vontade escrava
do vicio

pelo soberbo caráter
superior altivez
da posse

e eles foram despertados

pela natureza sábia
regente coesa
e vital

pela permuta possível
tolerado consenso
viável

pelo coletivo buscado
aldeia tentada
e mais justa

pelo espaço sufoco
cidade tormenta
doente

pelo balanço rompido
num cego golpear
irado

pelo campo minado
pálida verdura
veneno

pelo florido olfato
hipótese cromática
da vida

e eles foram despertados

pelas mazelas do dia
tramoias marcadas
em crimes

pelos desmandos do tempo
nas mortais traições
e ataques

pelas mentiras propostas
nas vazias campanhas
polidas

pela imprensa opaca
verdades forjadas
em truques

pelo estrondo de ódio
um letal torpedo
mirado

pela injusta jornada
na vilã proposta
escrava

pelo domínio da crença
imposto pecado
do medo

pelo informe gritado
ensino postiço
do poder

e eles foram despertados

pelo faminto sujeito
vagante pedinte
na rua

pelas pobrezas alheias
flagelos fraternos
por perto

pelos humanos remotos
distantes carências
nossas

pelo espirito ligeiro
mística viagem
da fé

pelo humilde animal
interno atento
em si

pela amizade presente
conversa permuta
diária

pelo risonho percurso
num serio critico
humor

pela infância crescente
descoberta pureza
ternura

pelo imediato querer
energia volátil
da paixão

pelos amores surpresos
sensíveis e breves
carinhos

pela volúpia física
latente impulso
tesão

pelo durável contato
próximo intimo
afeto

e eles foram despertados

pela solidão precisa
saudável retiro da
invenção

pela entrega noturna
restauro compasso
do sono

pela dadiva do dia
regalo vivente
e curto

pelo período repouso
íntima dinâmica
da luz

pelo disposto levante
insone ímpeto
de ser

pelo sincero silencio
constante partida
adeus…

joao diniz 2014

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ME – DITAÇÕES

me ditar

 

A situação chama & clama por atenção. O caminho só o é se percorrido, e a história, se escrita… Liberada a memória da obrigação de grafar o que acredita, incita a mão, que não mais aflita, se agita e escreve. O dito é o que fica.

A experiência é fortuna própria & confirma o vivido no tempo que acontece. Intento ou acaso, cada dia é capitulo a ser lembrado. A pessoa é o seu registro, a todo instante, sua vontade de gravar e a marca de seu esquecimento.

Corpo na água, quase sem gravidade, flutua no considerado mar das hipóteses solares do dia e na brisas de sua fé. Num mergulho continuo em ondas turvas, o pensamento persegue suas marés.

Tempo: continuo fluxo abstrato e aliado ao pulsar de um ritmo alado. Contagem de silêncios & notas & falas, além do passado e futuro uma escala que não se cala.

Espaço mede passo & numero & área & volume. A quantidade não soma o reto agir e o arco da pausa, ao acaso de encontros vários, sagrados ou ordinários.

Natureza é tudo o que vale. A montanha, a sanha de mudar & crescer, ser nascido & fazer valer o ciclo-período breve & vital que vem de repente vai afinal.

A oferta não sobra na generosa festa do querer & doar, & no raro gesto aberto que guarda a amostra do amparo, evento correto do cuidado.

A espera repara a pressa, a tempestade antecipada exagera a necessidade da hora. O livre não para na demora que duvida & decola.

A ilha navega no trovão & no vento & na asa da chuva & do ar. A ilha chama o farol-luar que esclarece a solidão do barco no humano vagar.

O outro é o espelho, alvo do olho, simétrico reflexo de si onde (se) acha a metade semi pronta do ser (ou não ser?) que nunca se toma. Uno e múltiplo exemplo do encontro e da soma.

Fogo ar elemento terra água sol, a cena móvel, cíclica roda do criar & destruir. Orgânico pendulo em linha, suspiro queimante na sequencia do equilíbrio que se busca em um novo giro.

Treva, ausência, vácuo, choro escuro sem eco ou acolhida. A distancia é dolorida, um furo no ser que nega o seu centro e a dupla voz da luz sonora, na conversa de almas pares, a clarear o encontro.

Construir o engenho que rompe a inercia obvia do repouso frágil que detém. O traço inventado desperta o branco num infinito possível em linha e letra. O projeto antevê o risco de levar adiante o desafio do instante: driblar o erro, abraçar o certo, fixar breve mente…

A voz buscada em si, distante do corpo próprio, é acompanhante da pessoa certa, nascida em você e que quer se ver no correto mirar da estrada adiante no próximo passo ou no calado salto. A escuta acorda um eco interno, frágil chamada.

Paraiso não é garantia, mas cenário da crença no eterno ou na recompensa por um julgado ato. Aqui na terra é no quase, feliz ou triste, mas sabe? O instante não ressuscita mas se contenta em ser assim, imediato.

Na leitura a retina é humilde e visa reter o que o coração vai ler no mosaico de palavras que o autor quis trazer com sua mão & mente. Cada pagina é um rumo a conceber o volume que se tem à frente.

A jornada é nada se comparada ao jogo das horas. Minuto a vir é demora, minuto que é foi agora & os que já eram são estórias. Curtas, encadeadas, justas, inventadas, ouvidas, desencontradas… Conto de fada, balada, toada a imprimir pulsação. Em cada medo diário a direção é contraria.

O começo é o salto do berço alto do conforto, ao sobressalto de empreender o esforço. Ao que vai ser é nada a intenção parada na só-ideia da ação que quer deixar seu porto.

Silencio absoluto da tarde, pio, motor, alarme. Som que propaga na voz do vale com seus cantos. O calar é um intento traduzindo o vento, musica pessoal, contentamento, alegria… O espaço é a nota que busca a sinfonia do dia.

O registro da ideia é o fluxo do momento que abre a veia do pensamento guardando para mais adiante o que nasce breve, fazendo constante a imagem do imprevisto, para ser revista.

O meio: equidistante extremo, eixo central da trilha, a metade da pilha, o pedaço igual, duas partes do todo, o ser & seu duplo. Para além do espelho é um pulo, um afeto, onde uma linha divide os lados do completo.

Tudo ou nada, nada & tudo. Do infinito ao zero, um exagero, do justo em contragosto, do falso desafiado, os muitos matizes da totalidade. Quem nada tem, tem tudo, quem tudo tem, tem nada. Precisar, ganhar, acumular, compartilhar, entregar, doar, a matéria, a mão de obra, a falta & a sobra, o valor & a renda, a verdade & a lenda, do produto descartado… tudo, tudo tem um preço inventado.

Entre o sono e o sonho, janela entreaberta, aurora, luz nova, primeiros sons diários. Lençóis imaginários, brancos e escuros tons moveis da noite com seu texto errante. O que esperar do dia? Solar, distante, fugaz, diferente? Faça chuva ou faça céu, a lua é um véu, superior anel, de estrelas e instantes.

Observar adiante da vista a conquista de algum acaso que inspira o ar surpreso de qualquer hora. A atenção é a ponte num rio de fatos, um fio que liga, saber e ato, aula breve, imediata, lição nata do dia que vai embora.

Estiagem, será curta? Entre trovões, dilúvios, desmandos, absurdos; os pássaros anunciam, próximos e distantes. A névoa se desfaz. Entre duvidas, tentativas, vendavais, invernadas. Ágil é o jato solar. Entre trevas, tristezas, tropeços e desmaios. Uma luz traz alento, até o próximo raio.

Flui a música a fazer marcas no tempo. Com respeito, brilha no silencio, a modular o infinito, dando graça ao segundo e ao minuto. Do lá absoluto ao acorde-melodia, cada qual tem o seu canto, & seu som no espaço & no passo que vira dança. Lição do pássaro: piar, voar livre, bailar no ar o intento, bater no ar e soar, a canção e o lamento.

Diária onda, a cada giro do sol 24 compassos horários a quem conta o passo das coisas e anota. Carta a si mesmo, caderno de viagem, dialogo frequente, constante passagem. Maré, jornal, seção; notívago, turno, estação; inerte, diurno, refeição; vesperal, breve, coleção; eterno, ritmo, canção… Orgânica rotina, nativo costume, vivido lance, ativo balanço. Uma jornada em ócio, festa ou negócio, súbito obstáculo, do segundo e do século…

joão diniz / brasília-gamboa s.c. dez 2013 jan 2014

Oscar e as sonoras lembranças da Pampulha

pampulha01

Vim morar em Belo Horizonte com menos de um ano de idade e quando comecei a descobrir seus espaços, ruas e edifícios fui dando conta que a cidade combinava bem com as canções da bossa nova que meus pais ouviam em casa.

Uma visão inicial de modernidade naquela época intuitivamente já habitava minha mente infantil e naquele começo dos anos 60 os nomes de Tom Jobim e Oscar Niemeyer se confundiam nos ambientes internos e externos de minha vida.

Eu reparava as construções em curvas e retas elegantes da cidade e me diziam que eram deste tal de Niemeyer e, mesmo que não fossem na verdade todas dele, estas obras compunham para mim um cenário urbano para a trilha sonora doméstica proposta pelas batidas moduladas do violão de João Gilberto.

Muitos anos depois eu estava pela primeira vez em Barcelona e fui visitar o colega Josep Maria Botey que acabava de receber os primeiros exemplares do livro que escrevera sobre Niemeyer para a coleção Paperback da Gustavo Gili, e ele me pediu que levasse alguns exemplares ao Oscar no meu regresso ao Brasil. Eu disse que sim e ele me entregou o pacote.

No dia que cheguei em BH, depois de cansativa viagem, consegui o telefone do Niemeyer e liguei para dizer da encomenda e ele parecendo entusiasmado me disse que o encontrasse em seu escritório na próxima manhã e desligou. Não tive tempo de dizer que estava recém regressado à minha cidade que não era o Rio de Janeiro e mesmo assim, sem desfazer as malas, segui naquele dia para lá num ônibus noturno.

Anos depois, numa noite de 2012, a TV informa que Niemeyer acabava de falecer. Um longo filme passa então por minha cabeça lembrando os tempos da infância modernista, a descoberta da Pampulha, de Ouro Preto, Brasília e até de algumas cidades estrangeiras, os estudos na escola de arquitetura em BH plenos de questionamentos aos cânones de um passado recente, e a admiração pelo longevo personagem que devido ao seu humanismo produtivo esteve sempre sujeito a muitos elogios e críticas.

Neste momento me invadiu uma grande saudade e uma sensação de agradecimento por ter sido contemporâneo da figura brasileira que representava uma importante parte da arquitetura do século XX. Este sentimento de perda de certa forma se confortava na certeza que o personagem já bastante idoso naquele instante passava, merecidamente, a ser eterno.

Mas a lembrança que mais me invadiu, na hora da notícia fúnebre, foi a daquela clara manhã carioca em que, após sacolejar no ônibus leito, cheguei ao escritório do Oscar no posto 6 em Copacabana.

Honrado com a sua informal acolhida, disse a ele que a cidade de Belo Horizonte com suas obras modernas, tinha definido a minha vocação pela arquitetura gerando simultaneamente a minha grande admiração por ele, que abrindo o pacote por mim entregue e folheando um dos livros, surpreso com a bela edição e o redesenho de vários dos seus projetos, me disse, como se não fosse ele o principal artífice daquele trabalho:

– Que cara c. d .f. esse Botey…

texto e desenhos por João Diniz

pampulha02

Paul, amizades e a camiseta

paul

Por sugestão da escritora Maria Antônia Moreira eu já havia desenhado a arte para uma camiseta comemorativa do show de Elton John em BH que teve um relativo sucesso.

A partir daí preparamos para o show de Paul McCartney em 04/05/2013 uma nova arte para camisetas, que foi imediatamente disponibilizada para aquisição e adotada pela Maria Antônia, Marcelo Xavier, Álvaro Gentil, e vários outros amigos como ‘uniforme’ oficial para assistir o show.

A empreitada coletiva, e a admiração por Paul e os Beatles, mereceu matéria no jornal Hoje em Dia em 03/05/2013 com texto de Elemara Duarte (abaixo) e fotos de Fred Haikal tiradas no local onde a ideia nasceu, o Café Book e BH.paul 004

A matéria:

Eles viveram a adolescência e a beatlemania típica dos anos 1960 em diferentes cantos de Minas Gerais. Unidos pela amizade, um quarteto – não de Liverpool, mas radicados em BH – planeja voltar aos tempos da juventude, amanhã, no show de Paul McCartney. Já está tudo pronto: ingressos garantidos, van fretada, camisetas personalizadas, letras na ponta da língua (há décadas) e entusiasmo de sobra.

Um deles é o artista plástico Marcelo Xavier. Mineiro de Ipanema, Leste de Minas, ele viu os Beatles pela primeira vez, em 1964, numa banca de revistas. “Eu era office boy e estava passando pela banca ao lado da minha chefe e vi a foto do quarteto maravilhoso, com franjas”, lembra nitidamente, hoje, aos 63 anos.

Xavier já ouvia Paul, John, George e Ringo no rádio, mas ver os donos das vozes com suas respectivas atitudes ançando moda foi outros 500. “Era uma época em que todo mundo usava topete. O mundo era muito comportado. Eles chegaram mudando tudo”, registra. Sem pensar duas vezes, Xavier decidiu seguir a seita roqueira made in Liverpool.

O show de sábado (4) é o fim de uma longa espera. “Só de estarmos no mesmo planeta com caras como aqueles já é demais. No mesmo show então, com um deles, nem se fala”, diz. Marcelo Xavier é cadeirante e foi ao jogo entre Cruzeiro e Nacional, no mesmo Mineirão onde acontecerá o show. “Não tive problemas. O estádio está completamente adaptado”, garante.

Encontro de gerações

Na mesma van irá a escritora Maria Antonia Coelho Moreira, 57 anos, junto da família: marido, filha, irmã, cunhado. “Era 1966, eu morava em Teófilo Otoni, região Nordeste do Estado. Lá, tínhamos apenas o pai de uma amiga nossa que viajava para o exterior, e que dava notícia dos Beatles para a gente”, lembra-se. Das viagens, ele trazia compactos com canções da banda para a alegria da turma.

Já em Belo Horizonte, Maria Antonia recorreu a um tio – beatlemaníaco – para aumentar seu repertório. “Quero me alimentar dessa energia deliciosa que aguardo desde a adolescência”.

O livreiro Álvaro Gentil, 50 anos, não mede esforços para ver Paul McCartney. Já foi a três shows do músico em outros cantos do Brasil. Ele nasceu em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, e conheceu a banda mais famosa do mundo já adulto. “John contestou, George era profundo, Ringo era o ritmo e o Paul é o mais musical. Me interesso muito pela carreira solo dele”, diz o responsável por descolar a van que vai levar a turma até o Mineirão.

Já o arquiteto João Diniz, 56 anos, ficou responsável pela estampa da camisa que uniformizará o quarteto mineiro. O desenho que Diniz fez foi postado no Twitter e no Facebook de Paul McCartney e foi compartilhado pelos fãs dezenas de vezes.

Uma curiosidade: quando tinha dez anos, Diniz já desenhava com a estética ultra colorida e fantástica da capa de “Yellow Submarine” (1966) e do filme “Magical Mystery Tour” (1967). “Minha mãe ficou muito preocupada com aquelas imagens que eu fazia. Então, me levou a um psicólogo. Que esclareceu: ‘Seu filho não está perdido!’ Esse psicólogo me absolveu”, brinca. Assim, uma mãe foi tranquilizada e, enfim, o pequeno fã pode exercer seu gosto musical em paz.

Assim como para Álvaro, ver Paul, para João Diniz, não é novidade, mas é sempre uma expectativa de emoção. Ele assistiu à apresentação do artista no último show, em São Paulo. “Gostaria que ele fosse mais experimental como em muitos lados B dos discos dele”, sugere.

ÁBACO: Suíte Multimídia 2013


flyer Ábaco ccufmg

PTERODATA ao vivo em ‘Ábaco Suíte’ no CCUFMG, BH, 10/04/13 com: João Marcelo (banjo, trombone, percussão), João Diniz (programações sonoras, texto, vídeo, fala), Leri Faria (fala, canto, violão), Rick Bolina (guitarra), Renata da Matta (edição de vídeo, projeção, cenografia), Bel Diniz (edição de vídeo, fotografia, cenografia).

pterodata ao vivo

matéria no jornal ‘O Tempo’ de Belo Horizonte

abaco suite o tempo

ouça o cd ‘Ábaco’

Diário de Berlin

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joão diniz, berlin, 1985

para Niemeyer

Captura de Tela 2012-12-22 às 09.09.45

a vida é um sopro
e não para o tempo
algum instante novo
é o melhor monumento

.

menos velho que eterno
o espaço reinventa?
a coerência pensante
a amplidão do moderno

.

com o século na mão
em um traço errante
menos importante a forma
que amizade adiante

.

o palácio coletivo se torna
realizando sonhos da gente
o povo entende a história
do banal ao consistente

.


texto e desenho joão diniz, dez 2012