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NO ANO QUE VEM joão diniz

quero no ano que vem

que todos sejam alguém

que não mais haja o pobre

o desprezado o preconceito

o autoritário presunçoso

o entristecido e o mau sujeito

no ano que vem espero

que a paz prevaleça

que o raivoso desapareça

que o inferiorizado cresça

e que só importe o que vale

e que o fanático se cale

percebendo que o ódio

é um mau remédio

no ano que vem confio

que o planeta floresça

que a fogueira se apague

que se limpe o rio

que um responsável apareça cuidando da grande floresta

e do que nela ainda resta

no ano que vem conto

que não falte trabalho

carinho diálogo brincadeira encantos amizade e tolerância

e que sobre tempo para infância

e muita disposição

para arte laser educação

verdade ciência perdão

para o abraço e a troca

e que sobre paciência

harmonia humildade

aprendizado e alegria

da calma vontade inspiração

medicina natureza poesia

no ano que vem

que se abra a porta

da cultura meditação filosofia

música dança arquitetura

e tudo mais que importa

que o ano que vem

aconteça a cura

da ira do rancor e do falso

do virus da mentira do atraso

do preconceito do egoísmo

do desamor da violência

do desprezo e do racismo

que no ano que vem

estejamos saudáveis e livres

da demagogia do atraso

da peste da treva do fascismo

da intolerância e do descaso

que estejamos distantes

dos rompantes do malvado

e de seus negócios sem troco

no ano que vem

e salvos

de suas gritadas preces

e de promessas aos fantasmas

e aos santos de pau oco

que no ano que vem

vivamos a epifania

onde o bem se revela

transformando cada dia

e nos dando muitos

recursos triunfos e amores

e que tenhamos saúde e vacinas

alto astral e bons climas

descansos tarefas acolhimento

silêncios e nobres pensamentos

na selva e na praia

na capital no interior

no campo e na cidade

no país e no exterior

sem futuro ou saudade

que o ano que vem seja agora

que esse ano novo

dure o tempo que for

e que logo aconteça

no bom gesto e no calor

que cada um de nós

ao outro ofereça

joao diniz / dez 2020

AUTO-ARQUITETURA: uma possibilidade

Com o ‘#fiqueemcasa’ surgem novas demandas para o espaço doméstico com o aumento de atividades remotas e virtuais como o teletrabalho, reuniões, aulas, lives e outras.

Nessa nova configuração alguns locais da casa se transformam compulsoriamente em um tipo de cenário ou estúdio improvisado, e passa a ser observado por interlocutores distantes num tipo de invasão de domicílio.

Até mesmo cada co-habitante ou membro da familia passa a necessitar de seu próprio novo ponto de recolhimento pessoal e sonoro para que realize suas tarefas interativas.

O espaço domestico não estava organizado para essas novas exigências e a AUTO-ARQUITETURA propõe o remanejamento crítico das áreas de ação e permanência pessoal a partir das demandas detectadas pela pessoa interessada em melhorar sua qualidade de vida.

Nesse contexto a intimidade dos moradores deve ser mantida, e é através desse remanejo dos locais do dia a dia, principalmente os do trabalho remoto, que a gradação pública-pessoal ideal será alcançada. Isso permitirá que as pessoas revelem, através de suas câmeras conectadas, e da transmissão voluntária de sua imagem, a atitude e argumentos que as fazem sujeitos ativos nas questões de uma nova época convulsa.

A ideia é que esse re-arranjo seja feito com recursos e peças já existentes, sem qualquer nova aquisição, obra ou serviços complexos, numa atitude não consumista e sustentável.

‘Fazer com o que tem’, é o mote. Pode-se através de uma simples revisão de posições do mobiliário, por exemplo, descobrir novas possibilidades de uso, de luz natural, de ventilação e de visadas até então não provadas num lar doce lar.

Os moradores, detectando essas atuais necessidades, podem experimentar a AUTO-ARQUITETURA pessoalmente, ou melhor, com a ajuda presencial ou remota, de profissionais, ampliando o potencial e flexibilidade do local onde estão, e melhorando a saúde e vitalidade de seu presente e futuro.

Vamos tentar?

Joao Diniz / agosto 2020

F I T A poemobjeto

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F I T A poemobjeto

vamos sem fazer fita

está tudo enrolado demandando cuidado
o experimento desfaz o rolo do tempo
ao abrir a bobina arriscar uma sina
com a vontade de fio seguindo o rio
o futuro será belo se desfeito o novelo
inventando na linha o senso que advinha

vamos sem fazer fita

letra a letra no foguete da caneta
destecendo palavras que vão se escrevendo
e indo adiante na frase branca do instante
filme metragem pensar a longa viagem
seguir sem parada no papel uma estrada
ao endereço achado após o começo

vamos sem fazer fita

a partida é para a roda a única saída
no passo que desfaz o laço do cansaço
como um brinquedo invertendo o medo
solo promissor no fim do escorregador
a cor vai ao céu desfiando o carretel
sem pretensão deixar a vaidade no chão

joaodiniz 2016

os poemobjetos de joão diniz são uma proposta híbrida que funde arte, design, poesia e performance e aparecem como peças a serem manipuladas  pelos leitores ou faladas de forma cênica. o texto, que nasce simultaneamente à idéia de transformação do objeto resultante, se refere sempre a um desdobramento formal e vivencial da peça que poderá ser reproduzida em tiragens limitadas.