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João Diniz: Arquitetura Expandida, texto de Fernando Pedro

FP20

Como definir o perfil do amigo e arquiteto João Diniz? Como um poeta, um músico, um fotógrafo, um escultor, um desenhista, um cenógrafo ou um arquiteto contemporâneo que transita em todos os circuitos culturais de seu momento? Suas múltiplas faces se fazem presentes em cada projeto arquitetônico realizado, quando inscreve na paisagem das cidades sua marca reveladora de conceitos, formas, filosofia e poesia.

Diniz circula por vários países e, sempre em sua bagagem, tem sua cultura, seus conceitos e desenhos. Sua obra flui a partir da filosofia de vida, que defende a ausência de fronteiras, o simples estilo próprio, a leveza e o movimento no uso de materiais, como o aço e o concreto, que em seu traço ganham a leveza de um poema. Integra, na maioria de seus projetos, a arquitetura e as artes plásticas, quando traz para suas construções o parceiro e artista Jorge dos Anjos. Expande sua arte e cultura aos mais jovens, formando gerações por meio de suas aulas e também em seu escritório de arquitetura.

Possuidor de uma mente ativa, assim nos apresenta uma breve reflexão sobre a presença da arquitetura na contemporaneidade: “A contemporaneidade – ao mesmo tempo em que nos indica um caminho de futuro, na maioria das vezes duvidoso, apesar dos avanços da tecnologia – também nos vincula ao passado do qual viemos, numa possibilidade de diálogo entre tempos e saberes. Vivemos atualmente um ‘renascimento digital’, no qual as conquistas da comunicação global, por meio dos recursos informáticos diversos, podem tecer uma ponte entre passado e futuro, tentando minimizar o espanto humano perante um presente que, apesar da aproximação global, não trouxe a felicidade coletiva”.

E completa: “Assim, a fotografia, o desenho, a música, a poesia, a escultura, o vídeo, a performance e o design, podem ser entendidos como disciplinas que dialogam entre si e integram uma ‘transArquitetura’. Nela, além da produção de espaços que acolhem a sociedade, pode-se gerar ideias e produtos imediatos e participativos. A ideia de que todos, artistas ou não, possam interagir e participar dessas ações acompanha sempre os passos desta ‘arquitetura expandida’”.

Com inúmeras realizações, iniciou suas ações ainda criança, favorecido pelo ambiente familiar constituído por músicos, permitindo-lhe amplo acesso ao circuito cultural. Por ter muita sensibilidade musical, recentemente lançou o CD Ábaco, obra que complementa um maravilhoso livro de poemas com o mesmo nome. Ainda como estudante, descobriu a fotografia. E esta o levou à arquitetura. “Na fotografia, comecei a ver a questão dos espaços, enquadramentos, cortes, o que tem muito a ver com a arquitetura. Então, optei pelo curso por causa da fotografia. Eu queria ver o mundo através da lente da câmera”, explica.

A câmera tem sido sua fiel companheira ao longo de décadas, e os registros de sua circulação por variadas culturas foram apresentados em exposições. Agora, Diniz se detém à preparação do livro Cidades visíveis, com fotografias e fábulas – um registro autoral de suas viagens internacionais. Tal publicação se somará a diversas outras, como o livro João Diniz e o depoimento na Coleção Circuito Atelier, da C/Arte.

João concluiu seu curso de Arquitetura na UFMG, em 1980, quando iniciou sua relação de obras, que hoje, felizmente, vem acontecendo a todo vapor. Entre suas realizações destacam-se o Residencial Gameleira, o Edifício Capri, o Scala Workcenter, o Royal Golden Aparthotel e o Omni Center, para citar alguns entre os vários edifícios, residências, poemas e exposições. Dedica-se a inúmeras pesquisas, com destaque para a construção que possa ser sustentável.

Diniz considera o meio ambiente, os materiais empregados, o aproveitamento de energia, a relação das pessoas com a habitação, a reciclagem dos resíduos, a incidência da luz solar – entre outros fatores associados à estética, cultura, economia, realidade urbana e social – elementos que agregam valor à sua arquitetura expandida. Por meio dessa sensibilidade da criação, projeta suas obras a partir de um exercício multicriativo, utilizando-se de todos os seus talentos, principalmente em sua relação com um mundo sem fronteiras. Sempre pronto a criar soluções. Essa é a disposição de João Diniz, um autor fundamental para a nossa história, um permanente registro aos sentidos.

Fernando Pedro é Historiador da arte e presidente da Editora C/Arte e do Instituto Arte das Américas

Publicado na Revista Perfil em agosto de 2013

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timeless chronology for Jorge dos Anjos, by João Diniz

timeless chronology for Jorge dos Anjos

by João Diniz

the slopes from Ouro Preto greatly contributed

to a culture of minerals, conspiracies and mists

in a geography of achievements, discoveries and inventions.

a new Brazil is recreated in its interior,

by hands of mud and dreams in the search of gold,

and turns its eyes to the red metallic ground

proposing new identities, heritages and doings.

 …

this story is written by multiple skins and languages,

when the portuguese caravel, coast-bound, sees in the faraway mountains,

the human adventure of dreams and wishes is read

in a text of blood with steps of freedom and struggle.

a policy proposed in the mixing pot of diverse races,

the national mosaic from an utopian and impossible certainty.

 …

the boy steps the stone street aware of towers and mountains,

his eye on the ground and skies, sees stars landed in search,

in explorations of the pencil, brush, chalk, canvas, charcoal and paper

and investigates new materials in the polychromatic blackness,

in the conversation with the masters of the past and current friends.

 …

Jorge dos Anjos, in his own project, is born every day

a person who expands art in an experimental biology,

and migrates from his natal  baroque ranges, in a mobile faith,

to the metropolitan horizons, in a beauty challenge,

to take his flight into light and shade, into steel and fire.

 …

and he dreams of soapstone and oils, in sheets and wood,

long fabrics, felt, rubber, and color cut flowers,

also in cubes, plans, sections, spaces, folds and openings,

a loose tension between discovery and invention,

in the border of creation and labor, silence and laughter.

 …

in his rhythmic walking time, without the stopping rest,

Jorge follows the artistic saga, in an untiring investment,

the dynamic calendar, away from sweet promises,

passes in a warm day of cranes and levitations,

and proposals, projects, lines, letters and prototypes,

cropped in a subtle geometry, a newborn mathematic.

 …

this cycle of spheres and rings, endless lines and points,

are trips departing from Africa retracing the route

between America and the world, proposing landing risks

in places like Spain, Holland, Belgium and France,

and even in southeast rivers, or southern rebel destiny

in the false peripheral claim of the centralising speech.

 …

in dialogue with the popular wisdom of the spontaneous feeling

the Angel shows other graphic gestures of the Brazilian diction

in a poem that comes, goes, returns, hears, and sees

the weeks and months, the passing year in numbers and hours

leaving only the mineral experience, of the living, of the knowledge …

 …

João Diniz, 2011

Cronologia intemporal para Jorge dos Anjos, por João Diniz

cronologia intemporal para Jorge dos Anjos

por João Diniz

texto para o calendário 2012 da a Pórtico Construções Metálicas fotografado e produzido por Marcílio Gazzinelli contendo obras de Jorge dos Anjos 

as ladeiras ouropretanas em muito contribuíram

para uma cultura de minerais, conspirações e nevoas

numa geografia de conquistas, descobertas e invenções.

um novo Brasil passa a ser recriado em seu interior,

por mãos de barro e sonho que buscam ouro,

voltando olhos para o solo rubro de metais

e propondo novas identidades, patrimônios, fazeres.

essa historia é escrita por múltiplas peles e linguagens,

quando a caravela lusa, retida na costa, vê nas montanhas

a aventura humana na constelação de sonhos e pretensões,

e é lida num texto de sangue, com passos de liberdade e luta,

num novelo político que propõe, no pote diverso das raças,

o mosaico nacional de uma utópica e impossível certeza.

o menino pisa capistranas atento às torres e montanhas,

olho no chão e céus, estrelas aterrizadas em buscas,

e nas explorações do lápis, pincel, giz, tela, carvão e papel,

investigando a nova negritude policromática dos materiais

em diálogos com os mestres do passado e atuais amigos.

Jorge dos Anjos, em seu próprio projeto, nasce diariamente,

na pessoa que expande a biologia experimental da arte

e migra das suas natais serras barrocas, numa fé móvel,

aos horizontes metropolitanos, aos embelezáveis desafios,

e empreende seu vôo de luz e sombra, de aço e fogo.

e sonha em pedra sabão e óleos, em chapas e madeiras,

em tecido, feltros, borrachas, e flores recortadas em cor,

também em cubos, planos, cortes, espaços, dobras e vãos,

numa tensão solta, entre a descoberta e a invenção,

na fronteira da criação e do labor, do silencio e do riso.

na caminhada rítmica do tempo, sem repouso cessante,

segue Jorge sua saga artística, incansável investimento,

em dinâmico calendário, ausente de promessas doces,

e que vai percorrer os dias em guindastes e levitações,

e proposições, projetos, linhas, letras e protótipos,

em recortes e geometrias das recém nascidas matemáticas.

este ciclo de esferas e anéis, pontas e pontos sem fim,

são viagens que partem de Áfricas refazendo o percurso

entre a América e o mundo e que desembarca riscos

em terras de Espanhas, Holandas, Bélgicas e Franças,

e até em rios saopaulinos, destinos sulinos rebelados

na falsa pretensa periferia dos centralizadores discursos.

em dialogo popular com a espontânea sabedoria do sentir

o Anjo mostra os outros gestos gráficos da dicção brasileira

num poema que surge, avança, retoma, escuta, e encara

as semanas e meses, do ano que passa em números e horas,

deixando apenas o minério da experiência, da vivencia, do saber…

João Diniz, 2011