Oscar e as sonoras lembranças da Pampulha

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Vim morar em Belo Horizonte com menos de um ano de idade e quando comecei a descobrir seus espaços, ruas e edifícios fui dando conta que a cidade combinava bem com as canções da bossa nova que meus pais ouviam em casa.

Uma visão inicial de modernidade naquela época intuitivamente já habitava minha mente infantil e naquele começo dos anos 60 os nomes de Tom Jobim e Oscar Niemeyer se confundiam nos ambientes internos e externos de minha vida.

Eu reparava as construções em curvas e retas elegantes da cidade e me diziam que eram deste tal de Niemeyer e, mesmo que não fossem na verdade todas dele, estas obras compunham para mim um cenário urbano para a trilha sonora doméstica proposta pelas batidas moduladas do violão de João Gilberto.

Muitos anos depois eu estava pela primeira vez em Barcelona e fui visitar o colega Josep Maria Botey que acabava de receber os primeiros exemplares do livro que escrevera sobre Niemeyer para a coleção Paperback da Gustavo Gili, e ele me pediu que levasse alguns exemplares ao Oscar no meu regresso ao Brasil. Eu disse que sim e ele me entregou o pacote.

No dia que cheguei em BH, depois de cansativa viagem, consegui o telefone do Niemeyer e liguei para dizer da encomenda e ele parecendo entusiasmado me disse que o encontrasse em seu escritório na próxima manhã e desligou. Não tive tempo de dizer que estava recém regressado à minha cidade que não era o Rio de Janeiro e mesmo assim, sem desfazer as malas, segui naquele dia para lá num ônibus noturno.

Anos depois, numa noite de 2012, a TV informa que Niemeyer acabava de falecer. Um longo filme passa então por minha cabeça lembrando os tempos da infância modernista, a descoberta da Pampulha, de Ouro Preto, Brasília e até de algumas cidades estrangeiras, os estudos na escola de arquitetura em BH plenos de questionamentos aos cânones de um passado recente, e a admiração pelo longevo personagem que devido ao seu humanismo produtivo esteve sempre sujeito a muitos elogios e críticas.

Neste momento me invadiu uma grande saudade e uma sensação de agradecimento por ter sido contemporâneo da figura brasileira que representava uma importante parte da arquitetura do século XX. Este sentimento de perda de certa forma se confortava na certeza que o personagem já bastante idoso naquele instante passava, merecidamente, a ser eterno.

Mas a lembrança que mais me invadiu, na hora da notícia fúnebre, foi a daquela clara manhã carioca em que, após sacolejar no ônibus leito, cheguei ao escritório do Oscar no posto 6 em Copacabana.

Honrado com a sua informal acolhida, disse a ele que a cidade de Belo Horizonte com suas obras modernas, tinha definido a minha vocação pela arquitetura gerando simultaneamente a minha grande admiração por ele, que abrindo o pacote por mim entregue e folheando um dos livros, surpreso com a bela edição e o redesenho de vários dos seus projetos, me disse, como se não fosse ele o principal artífice daquele trabalho:

– Que cara c. d .f. esse Botey…

texto e desenhos por João Diniz

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Paul, amizades e a camiseta

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Por sugestão da escritora Maria Antônia Moreira eu já havia desenhado a arte para uma camiseta comemorativa do show de Elton John em BH que teve um relativo sucesso.

A partir daí preparamos para o show de Paul McCartney em 04/05/2013 uma nova arte para camisetas, que foi imediatamente disponibilizada para aquisição e adotada pela Maria Antônia, Marcelo Xavier, Álvaro Gentil, e vários outros amigos como ‘uniforme’ oficial para assistir o show.

A empreitada coletiva, e a admiração por Paul e os Beatles, mereceu matéria no jornal Hoje em Dia em 03/05/2013 com texto de Elemara Duarte (abaixo) e fotos de Fred Haikal tiradas no local onde a ideia nasceu, o Café Book e BH.paul 004

A matéria:

Eles viveram a adolescência e a beatlemania típica dos anos 1960 em diferentes cantos de Minas Gerais. Unidos pela amizade, um quarteto – não de Liverpool, mas radicados em BH – planeja voltar aos tempos da juventude, amanhã, no show de Paul McCartney. Já está tudo pronto: ingressos garantidos, van fretada, camisetas personalizadas, letras na ponta da língua (há décadas) e entusiasmo de sobra.

Um deles é o artista plástico Marcelo Xavier. Mineiro de Ipanema, Leste de Minas, ele viu os Beatles pela primeira vez, em 1964, numa banca de revistas. “Eu era office boy e estava passando pela banca ao lado da minha chefe e vi a foto do quarteto maravilhoso, com franjas”, lembra nitidamente, hoje, aos 63 anos.

Xavier já ouvia Paul, John, George e Ringo no rádio, mas ver os donos das vozes com suas respectivas atitudes ançando moda foi outros 500. “Era uma época em que todo mundo usava topete. O mundo era muito comportado. Eles chegaram mudando tudo”, registra. Sem pensar duas vezes, Xavier decidiu seguir a seita roqueira made in Liverpool.

O show de sábado (4) é o fim de uma longa espera. “Só de estarmos no mesmo planeta com caras como aqueles já é demais. No mesmo show então, com um deles, nem se fala”, diz. Marcelo Xavier é cadeirante e foi ao jogo entre Cruzeiro e Nacional, no mesmo Mineirão onde acontecerá o show. “Não tive problemas. O estádio está completamente adaptado”, garante.

Encontro de gerações

Na mesma van irá a escritora Maria Antonia Coelho Moreira, 57 anos, junto da família: marido, filha, irmã, cunhado. “Era 1966, eu morava em Teófilo Otoni, região Nordeste do Estado. Lá, tínhamos apenas o pai de uma amiga nossa que viajava para o exterior, e que dava notícia dos Beatles para a gente”, lembra-se. Das viagens, ele trazia compactos com canções da banda para a alegria da turma.

Já em Belo Horizonte, Maria Antonia recorreu a um tio – beatlemaníaco – para aumentar seu repertório. “Quero me alimentar dessa energia deliciosa que aguardo desde a adolescência”.

O livreiro Álvaro Gentil, 50 anos, não mede esforços para ver Paul McCartney. Já foi a três shows do músico em outros cantos do Brasil. Ele nasceu em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, e conheceu a banda mais famosa do mundo já adulto. “John contestou, George era profundo, Ringo era o ritmo e o Paul é o mais musical. Me interesso muito pela carreira solo dele”, diz o responsável por descolar a van que vai levar a turma até o Mineirão.

Já o arquiteto João Diniz, 56 anos, ficou responsável pela estampa da camisa que uniformizará o quarteto mineiro. O desenho que Diniz fez foi postado no Twitter e no Facebook de Paul McCartney e foi compartilhado pelos fãs dezenas de vezes.

Uma curiosidade: quando tinha dez anos, Diniz já desenhava com a estética ultra colorida e fantástica da capa de “Yellow Submarine” (1966) e do filme “Magical Mystery Tour” (1967). “Minha mãe ficou muito preocupada com aquelas imagens que eu fazia. Então, me levou a um psicólogo. Que esclareceu: ‘Seu filho não está perdido!’ Esse psicólogo me absolveu”, brinca. Assim, uma mãe foi tranquilizada e, enfim, o pequeno fã pode exercer seu gosto musical em paz.

Assim como para Álvaro, ver Paul, para João Diniz, não é novidade, mas é sempre uma expectativa de emoção. Ele assistiu à apresentação do artista no último show, em São Paulo. “Gostaria que ele fosse mais experimental como em muitos lados B dos discos dele”, sugere.

ÁBACO: Suíte Multimídia 2013


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PTERODATA ao vivo em ‘Ábaco Suíte’ no CCUFMG, BH, 10/04/13 com: João Marcelo (banjo, trombone, percussão), João Diniz (programações sonoras, texto, vídeo, fala), Leri Faria (fala, canto, violão), Rick Bolina (guitarra), Renata da Matta (edição de vídeo, projeção, cenografia), Bel Diniz (edição de vídeo, fotografia, cenografia).

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matéria no jornal ‘O Tempo’ de Belo Horizonte

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ouça o cd ‘Ábaco’

AFORISMOS EXPERIMENTAIS, o livro

Captura de Tela 2013-03-24 às 12.29.20Esse post se refere à pré-edição experimental online que pode ser visualizado e adquirido on line no link AFORISMOS EXPERIMENTAIS Blurb bookstore.

O livro impresso, ampliado e reformulado, foi editado pela ‘Asa de Papel’ e lançado em dezembro de 2014.

Leia abaixo o texto de apresentação das duas edições.

SÍNTESES EM AMPLITUDE

O aforismo, embora seja uma forma milenar de transmissão de ideias, muito bem se adequa aos tempos atuais onde a velocidade de comunicação e síntese se fazem necessários para confrontar um universo cada vez mais multimidiático e disperso.

Joao Diniz nos apresenta nessa edição suas experiências reflexivas sobre esta contemporaneidade, muitas vezes confusa, que exige dele em sua forma de habitar o mundo, respostas instantâneas que traçam sua maneira de interagir com as diversas situações do dia a dia.

Este projeto nasceu através das publicações do autor no seu canal do Twitter, a rede social que resume postagens a 140 toques de teclas, propondo a concisão aos  usuários, o que nem sempre garante a clareza e a utilidade das mensagens.

Os temas caros ao autor são alinhados ao longo das páginas numa espécie de ‘programa de ação’ útil e fundamental a ele, que convida seus leitores, a interagir de forma igualmente crítica com algumas das questões e contradições cotidianas e atuais.

O autor faz de sua profissão de origem, a arquitetura, um ponto de observação para os diversos aspectos que nos provocam a reação sentimental, crítica e política. Assim esta arquitetura expandida se desdobra em assuntos afins como a arte, a natureza, os afetos, os espaços viajados, dentre outros, e até o humor ou reflexões inconclusas que indicam caminhos desconhecidos a serem desbravados.

No final do volume o arquiteto, que no dia a dia é construtor de espaços, dirige-se aos estudantes de sua profissão e a uma reflexão ética sobre seu oficio, que como a escrita aforística, é também milenar, e está em constante evolução.

Mais que experiências verbais e sintéticas as breves frases deste livro são um convite ao dialogo do individuo consigo mesmo e com o seu tempo. Sejam bem-vindos.

transBooks, março de 2013

PALAVRAS CONCRETAS

Os ensinamentos de Alberto da Veiga Guignard que pedia aos estudantes que ‘desenhassem sem tirar o lápis do papel’, levados adiante por Amílcar de Castro em sua obra gráfica e gestual, inspiram esta série de palavras/imagens caligrafadas por João Diniz onde o significado de cada vocábulo ganha expressão no signo gerado.

voz

é

eco

soa

som

amo

sim

só

paz

vida

la

ego

no

11o Fórum Mundial de Jovens Arquitetos em Kosice, Eslováquia.

DSC_6837O 11o Fórum Mundial de Jovens Arquitetos acontecerá em Kosice na Eslováquia, entre os dias 15 e 26 de julho de 2013, com inscrições abertas até 14 de março próximo.

O tema é ‘Retornar o rio à cidade’ e trata-se de um workshop de 10 dias onde os arquitetos participantes projetarão propostas para a cidade de Kosice, capital cultural da Europa em 2013.

Os participantes, num total de 25, são selecionados mediante análise de ficha de inscrição, currículo e portfólio enviados. Os organizadores fornecem acomodação e alimentação no período do evento.

No link abaixo clique em ‘cliquer ici’ onde é possível baixar maiores informações e ficha de inscrição em inglês e francês, os idiomas oficiais do encontro.

Chamada para o 11o FMJA em Kosice, Eslováqua

t u r m a

Captura de Tela 2013-03-01 às 19.05.40

turma

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pingüins tropicais, gambás sobreterrâneos , arquitetos de nuvens

poetas de silêncios, cenógrafos da bondade, cantores de perfumes

cozinheiros de carinhos e guerrilheiros de descansos…

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professores de perguntas, funcionários de respostas, empresários do espírito

fotógrafos da verdade, sérios gargalhantes, centrados gozadores

promissores instantâneos e porta-vozes de surpresas…

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médicos de sanidades, longevas bailarinas, amantes transparentes

beldades em discrição, engenheiros de delicadezas, atletas sem competição

costureiras do entendimento e domésticos peregrinos…

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… tem de tudo na minha turma

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soldados da humanidade, aposentados criativos, empolgados idosos

economistas da distribuição, urbanistas da natureza, maduros adolescentes

feiticeiros de ferias e sacerdotes do convívio…

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provisórios melancólicos, anjos na multidão, fadas com caridade

musas de analfabetos, ricos em amizades, carentes esperançosos

conjugues em liberdade e pacientes conquistadores…

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inspirados ociosos, ébrios de consciência, galantes não ansiosos

abastados desprendidos, modistas sem estação, lideres generosos

fatigados com disposição e sábios aprendizes…

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…. tem de tudo na minha turma

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texto e foto joão diniz

CRONOLOGIAS EM DIÁLOGO

Captura de Tela 2013-02-20 às 22.31.54ASPECTOS DO IMAGINÁRIO ESPACIAL EM BELO HORIZONTE NO INICIO DO SÉCULO XXI

João Diniz, arquiteto

IMAGENS SONHADAS

Em certa fase do século XX acreditava-se que no futuro, por volta do ano 2001, as cidades estariam totalmente transformadas.  Os cenários da ficção cientifica eram a referência para as imagens de uma época onde os espaços urbanos substituiriam suas históricas contradições por uma eficiente felicidade acética idealizada e sonhada como solução formal e humana para as incertezas do porvir.

Existem em nossas mentes, de seres trans-milenares que somos, várias imagens, recolhidas desta historiografia ficcional, onde pequenos veículos aéreos cruzam os céus urbanos como bolhas de vidro e luz com pessoas transportadas neles, ou que de forma mais eficiente, se desmaterializariam em um local surgindo em outro. Paises poderiam ser transpostos assim e as linguagens não seriam problema pois algum tipo de cirurgia mental instalaria em qualquer cérebro o chip de um idioma desconhecido, eliminando qualquer barreira de comunicação entre os povos.

As construções igualmente apareceriam como máquinas eficientes e funcionais. As mega-estruturas seriam a invenção redentora onde a cidade ganharia a forma de grandes redes artificiais onde qualquer resíduo de uma natureza indomável estivesse distante.

Neste ambiente não existiria  lugar para os excluídos ou os  miseráveis, as pessoas em seus trajes geométricos seriam praticamente iguais, belas, alegres, servidas igualmente por estes sistemas de conforto e paz.

Em meu pensamento de criança eu esperava o momento em que Belo Horizonte se transformasse nessa figura de cidade ideal alinhada com o futuro, a tecnologia, as boas lembranças e a felicidade.

FICÇÃO BRASILEIRA

Ao mesmo tempo era previsível que este ambiente de projeção temporal chegaria ao Brasil de forma própria uma vez que estas cenas da evolução humana e de seus espaços vinham de uma Hollywood distante, postulados imaginários de uma visualização utópica para um amanhã ideal.

O filme Blade Runner, O caçador de Andróides, foi, em minha memória, o primeiro a propor uma modificação deste ambiente futurista e esterilizado. As ruas de suas cenas estavam cheias de lama e conflitos. Os ícones do futuro tecnicista estavam lá, mas existia uma multidão de mendigos de etnias periféricas, automóveis antigos, crime, roubo, corrupção.

Nesta película o que os andróides, perfeitos seres humanos artificiais de curta existência, mais queriam era ter uma memória afetiva, um passado que pudesse ser lembrado. Carregavam fotos de desconhecidos, falsos e inexistentes parentes forjando uma herança familiar, como se isto fosse a condição primeira para que alguém fosse humano.

Não me lembro de nenhuma história deste futurismo ficcional que propusesse o que realmente aconteceu em diversas partes ao redor do planeta. Uma das maiores diferenças entre este tempo ficcional e o tempo real, está na idéia de que as pessoas na verdade não são transportadas, mas seus pensamentos, seu trabalho, sua imagem, voz e até seus sentimentos.

Quase toda a parafernália mecanicista daquela cinematografia mental está hoje dentro de um computador pessoal e do telefone celular. As pessoas podem se encontrar no trabalho ou nas ruas, mas a grande parte da comunicação e da produção se dá de forma remota. A palavra ´virtual´ tem mais sentido hoje que nos tempos da Odisséia no Espaço ou de Flash Gordon.

As cidades acabaram não se transformando neste cenário idealizado de um futuro ficcional. Diversas contradições ainda as habitam, as tensões sociais aumentaram, a violência é a maior inimiga, a segurança está atrás de grades e alarmes, o inimigo pode estar ao seu lado e te tomar de assalto explodindo todas as suas esperanças.

BH, NOSSO LUGAR NO MUNDO

Belo Horizonte como uma cidade do mundo também assistiu a estas projeções, expectativas e curiosidades. Como cidade planejada, inventada na mente e na prancheta de seus realizadores, talvez guarde uma proximidade maior com a possibilidade de qualquer utopia transformadora.

Irreversivelmente a bordo do século XXI podemos fazer um exercício de entender o que aconteceu, ou o que está acontecendo, uma vez que o tempo flui como um rio e ele nunca é o mesmo porque os dias passam como águas que não voltam.

Em um descontinuo passeio pela cidade nos dias de hoje avistamos ruas cheias, tráfego, buzinas, malabaristas de semáforos, camelôs, táxis, pedintes, e muito mais coisas sob a Serra do Curral. São partes de um cenário conhecido e real. Um  visitante estrangeiro talvez estranhasse alguns destes personagens, mas nós habitantes de BH os conhecemos bem.

Façamos agora uma leitura de nossa cidade, um exercício de comparação entre dois tempos paralelos em pontos de sua atual paisagem construída, em alguns casos contrapondo realizações distantes em mais 50 anos de suas respectivas realizações. O primeiro tempo é o tempo da memória, da lembrança de possibilidades descortinadas num passado recente. O segundo tempo é o presente, o ambiente real, materialmente vivo, mas ligado a tempos anteriores como se a cidade fosse o andróide que para se manter vivo tem que guardar e entender a sua história. Um terceiro tempo ficará a cargo de cada um em suas reflexões, conclusões e propostas pessoais.

O CENTRO COMO ALMA

Estamos na Praça Sete de Setembro, o coração da cidade, ponto de grande convergência e passagem dos moradores, centro do hipercentro onde foram concluídas em setembro de 2003 obras de requalificação de seu espaço central, e das quatro ruas de pedestres fechadas ao tráfego. Embora faça parte da equipe que elaborou a proposta quero aqui, mas mais que justificar o projeto fazer algumas considerações pertinentes ao alcance desta ação.

Certamente o primeiro patrimônio de Belo Horizonte é o seu traçado urbanístico. A ortogonalidade das duas malhas das ruas e avenidas giradas a 45 graus faz de BH um exemplo mundialmente conhecido por esse tipo de urbanismo. Ela é freqüentemente citada ao lado de Washington nos Estados Unidos, La Plata na Argentina, e outros projetos de cidades novas do inicio do século XX. Esta geometria está pousada sobre o relevo montanhoso da Serra do Curral, propondo uma característica do espírito da cidade e de sua gente, aonde a racionalidade do projeto se associa à sensualidade da geografia, definindo o caráter pluralista e complementar de sua paisagem urbana e social.

A Praça Sete de Setembro é o centro  dessa mandala urbana e o projeto de revitalização vem de um concurso nacional de Idéias Para o Centro de Belo Horizonte, o BHCentro de 1989, onde três equipes foram premiadas. Uma destas equipes era formada, por uma fusão de escritórios coordenados pelo arquiteto Maurício Andrés, que são os  do arquiteto Gustavo Penna; o de Álvaro Hardy e Mariza M. Coelho; o de Jô Vasconcellos e Éolo Maia em associação com Flávio Grillo que foi o coordenador geral do projeto e o meu escritório em associação com as arquitetas Graça Moura e Márcia Moreira.

Dois anos após a realização do concurso BHCentro essa grande equipe foi convidada a elaborar o projeto para a nova Praça Sete. Este projeto de 1991 é o que se inaugurou em 2003, com algumas modificações sugeridas pelas diversas administrações municipais nestes doze anos, ainda que de diferentes partidos políticos, todas elas empenhadas em implantar o projeto.

Este pequeno histórico pode sugerir o alcance e a agilidade do poder publico em Belo Horizonte em abordar esse tipo de requalificação urbana. É claro que podemos criticar o alcance da intervenção que não transformou profundamente ou radicalmente a praça mas devemos também entende-la como a imagem do possível e do viável no presente instante. Uma acupuntura urbana  que valoriza um ponto chave criando, através da inserção de um mobiliário diferenciado, um grande estar urbano para a população nos quatro quarteirões fechados e valorizando o obelisco central ponto focal de toda a composição.

O centro da cidade é o principal valor de nossa consciência e identidade urbana. A qualificação deste espaço focal irradia para toda a cidade a integração entre os habitantes e seus espaços de convívio. Intervenções para a melhoria do centro sempre estão na pauta das ações solicitadas pela população, ou detectadas pelos técnicos, e intermediadas pelo poder publico que seguidos pela iniciativa privada podem e devem ser os deflagrar estas modificações.

O centro da cidade está também presente na atual discussão em torno da saída do Centro Administrativo Estadual da Praça da Liberdade, outro ponto de grande valor ambiental e simbólico da cidade. São defendidas duas posições: uma é a construção do novo centro administrativo na área do aeroporto do Carlos Prates cujo projeto foi solicitado ao nosso Oscar Niemeyer; outra hipótese é que fossem ocupados diversos edifícios ociosos pertencentes ao estado na zona central da cidade, gerando nova dinâmica na área.

Não cabe aqui defender uma ou outra posição mas podemos entender a oposição entre elas. A construção de um novo provável símbolo urbano se contrapõe a uma proposta de melhoria e reutilização de pontos existentes no  centro da cidade.

MISTÉRIOS DA FÉ

Caminhando pela avenida Olegário Maciel tem-se duas construções marcantes e impactantes por sua escala e presença no contexto. Uma delas é o Conjunto JK símbolo de uma utópica experiência habitacional nos anos 50; o outro é o recentemente concluído templo religioso construído nas imediações, A Catedral da Fé, obra que mobilizou grande parte dos melhores fornecedores para a construção civil atualmente existentes na cidade.

Conforme visto durante a obra, no templo foram utilizadas várias das tecnologias de ponta atualmente disponíveis, como estrutura e painéis de fachadas em concreto pré-fabricado, vidros espelhados coloridos, avançados estudos de acústica, instalações, e segurança entre outras. Paralelamente a estes avanços técnicos a construção apresenta uma imagem historicista e um aspecto clássico, com o seu grande frontão de acesso, suas escadarias frontais, adornos renascentistas fundidos em material plástico, torres encimadas por cúpulas douradas.

Esta fusão de elementos históricos e tecnológicos, gera a imagem do templo, relendo numa escala bem maior e impressionante a tradicional forma eclética das igrejas de inspiração neoclássica através do uso dos vários materiais criando uma estética ao mesmo tempo austera e imponente, retrato de uma nova fé que busca atrair e abrigar seus novos fiéis.

O conjunto JK na contra-esquina diagonal por sua vez apresenta sua imagem alinhada aos cânones da arquitetura modernista revistos por Niemeyer nos anos 50, ou seja a simplificação cúbica e o uso de poucos materiais. Esta obra também usou a tecnologia de ponta de sua época  e revela em seu programa uma tentativa de criação de um ´edifício-cidade´ onde estariam presentes diversos serviços complementares como residência, abastecimento, lazer, cultura e até um hotel.

Esta utopia estava alinhada com os ideais socialistas do arquiteto e a visão progressista de JK. O edifício hoje está sendo reformado com a substituição de seus brises-soleils e esquadrias mas guardou por muito tempo uma preconceituosa imagem de abandono e de  baixa qualidade ambiental. Antes de ser construído o templo vizinho funcionou em amplo salão no térreo do edifício JK.

A contraposição dos dois tempos nas duas edificações, seus fundamentos ideológicos e culturais e o respectivo resultado espacial de cada uma das propostas nos leva a pensar na descontinuidade da evolução de uma estética construtiva, aos olhos da população, desde a revolução modernista dos anos 40 até os dias de hoje.

O Brasil foi reconhecido como o país que melhor acolheu e produziu arquitetura moderna a partir desta época, chegando a ser foco internacional de interesse. Os princípios desta nova forma de projetar e construir foram levados aos limites com diversos acertos e equívocos que ainda estão presentes na cultura arquitetônica mundial passando por revisões e momentos de crise.

Por outro lado podemos constatar que o gosto brasileiro que bem recebeu as novidades modernistas nos meados do século XX está hoje mais alinhado a uma estética globalizada que é traduzida de acordo com os critérios estéticos e a liberdade de cada um que realiza ou admira as novas obras construídas.

Na arquitetura como na música parece existir atualmente uma distância entre o que em um certo momento representou nossa cultura e identidade nacional, como por exemplo Brasília, a Bossa Nova ou a chamada MPB, e o que realmente se constrói e se consome hoje nos diversos cantos do país, nas festas populares, na maioria das estações de rádio e TV.

ADOLESCÊNCIA E MATURIDADE URBANA

Outro exemplo desta contraposição de tempos e resultados estilísticos existe entre duas operações de expansão urbana baseadas na criação de novas áreas residenciais nos arredores da cidade. Nos anos 40 a Pampulha surge como projeto de criação de um novo pólo residencial, e de lazer. Em torno da lagoa as construções de um cassino, um clube, uma igreja e uma casa para bailes populares viriam a sinalizar a operação do novo eixo de crescimento da cidade. A história é bem conhecida, o jovem arquiteto Niemeyer, convidado pelo então prefeito JK, projeta os edifícios que deram início à, a partir de então mundialmente divulgada, arquitetura moderna brasileira.

Se compararmos este momento a uma outra operação de expansão urbana em torno de um lago, o condomínio Alphaville dos anos 90 no vetor sul da cidade nas margens da lagoa dos Ingleses, veremos que as propostas e resultados são bem diferentes, ainda que as duas aproveitem bem a qualidade visual gerada pela linha horizontal da água.

É lógico, os tempos são outros, a segurança passa a ser o fator mais importante num assentamento deste tipo o que justifica a quantidade de muros e guaritas que garantem a tranqüilidade dos moradores no Alphaville. Mas se nos detivermos na imagem das construções públicas dos dois empreendimentos somos levados a contrapor a imagem das obras da Pampulha, que passam a ser o símbolo de BH, às construções do outro numa interpretação estilística ligada às tradições espanholas ou mexicanas.

As duas operações urbanas geram assim resultados próprios. A primeira, mais antiga, inclui uma forte dose de intenções vanguardistas e culturais enquanto a segunda prefere um efeito cenográfico importado. Mesmo estando as realizações distantes em mais de mais de 50 anos, a mais tradicional e conservadora é a mais recente.

A LAGOA MUTANTE

Esta mesma região da Pampulha sofreu desde sua criação um enorme crescimento mas, de certa forma, manteve sua característica de lugar de ócio e contemplação. Apesar da expansão de sua densidade populacional suas margens são ainda o principal contato da população com um grande espelho d´água. A grande perda ambiental nestes anos foi a diminuição desta superfície hídrica devido a uma série de assoreamentos e descuidos ambientais chegando a gerar uma grande ilha num dos cantos do lago.

Reconhecendo o valor da região para a identidade urbana o poder público vem realizando obras na Pampulha que trazem uma nova qualidade ao local através dos projetos dos arquitetos Álvaro Hardy, Mariza M. Coelho e Gustavo Penna. Estas intervenções  se baseiam em reforçar a vocação do local de ser área urbana voltada ao lazer e pratica de esportes, caminhadas e ciclismo.

Optando por não fazer intervenções de grande impacto construtivo o projeto valoriza as margens do lago através de pistas para pedestres e ciclovia, cria vários locais de esportes e permanência, ao longo de toda a borda da lagoa. Segundo os autores uma série de reuniões foi feita com os diversos representantes da comunidade local, o que balizou as decisões adotadas.

A área da grande ilha formada pelos assoreamentos será transformada num parque que valorizará as espécies animais e vegetais que ali se instalaram. Alguns equipamentos darão suporte ao funcionamento deste parque.

Esta obra, juntamente com a revitalização da Praça Sete, sinaliza a atual preocupação do poder público municipal com áreas de grande significado para a cidade. A simplicidade das intervenções nos dois casos mostra que, mesmo na falta de grandes recursos, algo pode ser feito e que as administração municipais não devem se afastar dos anseios da população buscando criar espaços urbanos afetivos e efetivos.

MIRADAS E MORADAS

Existem diversos projetos de interesse público para vários locais da cidade de Belo Horizonte realizados e arquivados em instâncias da administração municipal. Vários deles ainda guardam certamente sua vitalidade e sua necessidade de serem realizados enquanto outras demandas surgem a cada dia exigindo que novas propostas sejam elaboradas.

A pobreza ambiental de grande parte de nossas cidades se deve ao afastamento progressivo que o estado vem mantendo destas questões espaciais após os tempos heróicos da Pampulha e de Brasília. A cidade a partir de então fica muito mais sujeita ao jugo comercial e empresarial com o foco principal das novas realizações mais voltado ao lucro do que ao interesse histórico e social de outras épocas. Qualquer tentativa de resgate deste tempo perdido é bem-vinda. Existe atualmente um novo tipo de empresas preocupadas com a responsabilidade social e ambiental, que tem muito a contribuir nestas questões.

É necessário que todos os setores da sociedade reconheçam que o ato de construir modifica às vezes irreversivelmente as paisagens, mas que essa transformação pode se dar de maneira positiva acrescentando qualidade ao ambiente urbano e cultural. Toda ação tem seu sentido simbólico gerando significados e sentimentos diversos.

Existe espaço para todas as estéticas e culturas mas deve sempre prevalecer a preocupação com o ser humano, com sua identidade, com a sustentabilidade e evolução de sua cultura original, na manutenção de sua memória e nas proposições coerentes e necessárias para o seu futuro.

As melhorias ocorridas em Curitiba, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e outras cidades, e mesmo em outros países, podem nos servir de exemplo e inspiração. A paixão entre habitantes e seus espaços são um sinal da vitalidade de uma cidade e cabe a todos, poder publico, privado e cidadãos agir no sentido que esta estima não seja abalada ou que seja resgatada.

Que não haja espaço para a apatia ou a intolerância. A participação é fundamental. Todas opiniões e criticas são bem-vindas. O debate é fundamental. Todos são responsáveis pela saúde e bom desempenho deste organismo vivo que é a cidade. Belo Horizonte como uma das principais metrópoles brasileiras pode e deve manter sua vocação de ser um dos principais centros geradores de idéias e realizações pioneiras.

texto de João Diniz escrito para o jornal ‘O Tempo’ de Belo Horizonte e publicado nos primeiros anos do século XXI / foto: João Diniz

TRANSFORMAÇÕES PURISTAS

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DEPOIS DO CUBISMO, obra de Amedée Ozenfant e Charles Édouard Jeanneret, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Le Corbusier, traz questões que estão na base da revolução da arte moderna ocidental.

resenha crítica por João Diniz

Logo após o término da Primeira Guerra Mundial, a Europa vivia uma nova esperança transformadora, a sociedade compreendia aquele momento como uma época de renovação e modificações vitais. A brutalidade do conflito armado era entendida por muitos como necessária num processo de evolução e seleção natural dos verdadeiros valores da civilização e da cultura.

Neste cenário de revisão histórica se encontram em Paris dois jovens artistas com pouco mais de 30 anos, Amedée Ozenfant e Charles Édouard Jeanneret, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Le Corbusier e se tornaria um dos principais pensadores, artistas, urbanistas e arquitetos do século 20.

Ozenfant era um ativista das artes e da cultura na cidade, editava a revista Élan, estava envolvido com pintura e desenho industrial, e pertencia a uma família ligada a uma empresa de obras públicas, pioneira na utilização do concreto armado, um novo material que surgia. Le Corbusier, arquiteto autodidata, acabava de chegar da Suíça, seu país natal, e tentava em Paris levar adiante a Societé pour l’ aplication du betón arme, procurando meios de construir sua proposta de habitação social denominada Casa Dom-ino.

Ozenfant inicia Le Corbusier na pintura e na vanguarda artística da cidade marcada naquele momento pela crise do Cubismo, movimento estético vigente desde antes da guerra. Os dois artistas compartilhavam afinidades e interesses comuns pelo modernismo industrial e científico e pela arte antiga italiana e grega e passam a discutir amplamente as questões e caminhos da arte e da cultura daquela época. Esses debates entre os dois culminaram na publicação em 1918 do pequeno livro/manifesto Depois do Cubismo, onde propunha uma nova estratégia estética e existencial denominada Purismo de abrangência conceitual que abarcava a pintura, a arquitetura e outras ações artísticas.

Esse livro é freqüentemente citado como importante marco teórico na cultura do século 20 e acaba de ser publicado pela Editora Cosac Naify numa linha de ensaios de pequeno formato integrando a série Fontes da arquitetura moderna, elaborada por Carlos Ferreira Martins, professor da USP São Carlos, e visa preencher uma lacuna na bibliografia disponível em língua portuguesa sobre o período de constituição e afirmação da arte e da arquitetura modernas.

O Purismo, proposto no livro, aparece como um novo movimento cultural que promove um retorno à ordem e uma reação à realidade caótica de uma França brutalizada e profanada pela guerra. A guerra, para os puristas, era um marco temporal tão decisivo quanto o Cubismo, movimento reconhecido na época como o já esgotado e último advento das escolas artísticas, mas ao mesmo tempo a única manifestação de arte que ainda apresentava alguma importância, numa avaliação crítica que não deixava de reconhecer nele um certo valor.

Mesmo assim, a contribuição do Cubismo, segundo a análise dos puristas, apresentava grande debilidade teórico-doutrinária e um forte caráter ornamental e decorativo, o que o enfraquecia e o tornava uma arte menor. Muitas dessas críticas foram posteriormente revisadas e abrandadas na revista L’Esprit Nouveau, editada por Ozenfant e Le Corbusier. Mas no momento inicial estes ataques e provocações polemistas não pouparam importantes artistas da época como Derain, Picasso e Braque.

O programa purista buscava uma arte alinhada com uma ordem matemática e lógica propondo um retorno à figuratividade e à natureza ecoando o espírito daquela época moderna onde a ciência e a industrialização eram as novas forças transformadoras.

A figura humana aparecia como o grande tema, aliada a objetos industrializados da vida cotidiana e a uma estética da máquina e de formas precisamente delineadas, numa arte que valorizava mais a concepção que a técnica, mais os aspectos invariantes da obra do que os seus atributos acidentais, excepcionais, inorgânicos, protestativos ou pitorescos.

O livro Depois do Cubismo, na edição da Cosac Naify, conta com texto introdutório de Carlos Ferreira Martins, que aborda o ambiente cultural na França e Europa daquela época e as condições históricas que dão origem à obra. Devido ao legado posterior de Le Corbusier, o livro surge como importante material de estudo relativo aos primeiros passos do importante arquiteto e da arquitetura moderna.

O texto original está dividido em quatro capítulos. O primeiro é A situação atual da pintura, no qual os autores traçam um panorama da arte da época, abordando procedimentos clássicos, e citam artistas e movimentos estéticos anteriores, chegando a uma análise crítica do Cubismo.

A segunda parte do livro, denominada A situação da atual da vida moderna, que é diretamente atribuída a Le Corbusier, inicia com um elogio à natureza que é definida como “jazigo de todos os valores concebíveis por nossa razão”. Essa afirmação inicial é seguida por uma apresentação e análise do “espírito moderno”, onde aparece um elogio à máquina e ao espírito industrial e coletivo que indicam a semente da nova arquitetura, em que reinará a harmonia e o rigor, distantes da arquitetura decorativa e superficial que então reinava na Europa.

Segundo os autores, essa passagem transformadora se deu com a chegada dos engenheiros e construtores que, através das novas pontes, fábricas, barragens e outras obras gigantescas, trouxeram de volta o caráter utilitário às construções, onde se pressente praticamente uma nova “grandeza romana”.

O terceiro capítulo, As leis, afirma que uma grande arte partirá necessariamente de uma escolha analítica por parte dos sentidos humanos, de materiais e procedimentos pertencentes ao universo presente, que gerarão uma associação que se elevará acima de contingências grosseiras e fugidias do momento e expressarão as leis que são a causa do deleite de nosso espírito.

Aparece então a defesa do paralelismo entre arte pura e ciência pura, nas quais apenas os procedimentos técnicos diferem, os objetivos são os mesmos, ou seja, a importância em ambos os campos da expressão das leis naturais na busca de constantes conceituais, o invariante, ou a ação fundamental que embasa a verdadeira criação científica ou artística.

O último capítulo, intitulado Depois do Cubismo, discorre sobre atributos inerentes à obra de arte, como as leis da plástica, a escolha do tema, o discurso sobre a forma e a cor, sobre as proporções, sobre a concepção que ocupa papel crucial no fazer artístico e sobre as deformações e os efeitos “possíveis e permitidos” à nova arte. O livro termina com a definição e a proposição em tom de manifesto teórico do Purismo. A publicação traz ainda uma lista de leituras recomendadas e biografia dos autores.

Nos anos posteriores à publicação do livro, os autores estiveram envolvidos em uma série de exposições artísticas, publicações, projetos e obras arquitetônicas, alinhados com os conceitos iniciais do Purismo, mostrando que este manifesto teria a força de uma semente fértil que mudou a face do século 20.

Ozenfant, até a década de 60, quando faleceu, desempenhou uma importante carreira como artista plástico, teórico e professor fundador de sua própria escola, atuando em diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Suas obras fazem parte do acervo dos principais museus do mundo. Seus textos são fundamentais para o entendimento da arte e cultura modernista.

Le Corbusier, também falecido nos anos 60, se transformou numa das figuras cruciais para o entendimento do século passado, não só no campo das artes, arquitetura e urbanismo, mas na definição deste Ésprit Nouveau, o Espírito Novo, que transformou definitivamente a percepção que temos do mundo contemporâneo. Seus primeiros projetos conhecidos como casas puristas, uma delas projetada em 1922 para Ozenfant, serviram como direção tanto para seus projetos futuros em diferentes continentes, como para o trabalho de arquitetos em todo o mundo, o que se convencionou chamar de arquitetura moderna.

Em alguns momentos da segunda metade do século passado, a cultura de massa tentou transformar estes procedimentos puros, seguros, e aparentemente de poucos riscos gráficos e existenciais, no paradigma de uma arquitetura culturalmente segura, ampla e internacionalmente assimilada pelos arquitetos e pela sociedade. Esse entendimento generalizante acabou gerando exemplos às vezes de grande pobreza repetitiva, às vezes de indiscutível valor cultural, mostrando que o manifesto purista propõe um caminho ainda válido, quase 90 anos depois.

Nas duas últimas décadas do século 20, o Purismo – às vezes também denominado genericamente de modernismo ou minimalismo – principalmente em arquitetura – passou por várias crises e questionamentos nos períodos conhecidos como pós-modernistas, deconstrutivistas ou expressionistas, que aparentemente se opunham a ele. Na verdade, esses caminhos nem sempre convergentes demonstram a vitalidade e a inclusão dessa cultura moderna, fundadora e abrangente, que continua a seguir sua linha ao longo da história.

Como queriam os primeiros puristas, e como queremos hoje, a sociedade contemporânea e do futuro, para ser vital e sustentável, não poderá nunca se afastar da parceria com a natureza e com a máquina, da responsabilidade sobre o passado e o futuro, da consciência sobre o corpo e o espírito.

livro: DEPOIS DO CUBISMO de Ozenfant e Jeaneret (Le Corbusier), introdução de Carlos Ferreira Martins, tradução de Célia Euvaldo, Cosac Naify Editora, 88 páginas
Resenha crítica escrita por João Diniz para o PENSAR suplemento cultural do jornal Estado de Minase publicada em 22/10/2005

Tangram House, an architectural toy

Tangram house is an architectural toy coming as a generative modular and volumetric system that allows the study of  volumetric compositions for buildings based on the known chinese pieces that come from a single square. In this system the traditional plan geometric forms achieve a proportional width becoming compositive shapes. In the chinese tradition the tangram pieces are mostly used to generate animal forms, in our case we investigate non existing living typologies.

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proposal and images by JDArq