Sketch Collection JD + Plural na revista Elle

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JD currículo fotográfico

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João Diniz é arquiteto e tem seu nome ligado à contemporânea arquitetura mineira e brasileira com obras construídas, premiadas e publicadas, fazendo, algumas delas, parte da paisagem de BH.

Ele costuma dizer que chegou à arquitetura através da fotografia que pratica desde adolescente e que através da foto aprendeu a investigar espaços, luzes, enquadramentos. Fotografando a obra de diversos arquitetos, no Brasil e exterior, iniciou contatos com as possibilidades construtivas e a realização de projetos diversos.

Nos tempos da escola de arquitetura na UFMG participou de diversas exposições e premiações publicou os livros ‘Com vidro nos olhos’ em parceria com o colega Carlos Antonio Leite Brandão e ‘Fotovida’ com o poeta Murilo Antunes.

A partir da realização de seus projetos passa a fotografá-los em parceria com o fotografo Marcilio Gazzinelli, e com estes registros publica em 2002 o livro/monografia ‘Joao Diniz Arquiteturas’, em 2007 participa com o livro João Diniz/Depoimento da coleção Circuito Atelier da editora C/Arte onde aborda a perspectiva inter-disciplinar de sua trajetória que inclui a fotografia, o vídeo, o desenho e a música. Em 2010 publica na Editora JJCarol de São Paulo o livro Steel Life enfocando em um recorte poético e fotográfico a sua obra arquitetônica em aço.

Junto com sua prática arquitetônica participa de exposições fotográficas, performances, videoclips e gravações integrando fotografia, música, vídeo e poesia  com a participação de vários colaboradores através do coletivo Pterodata, por ele fundado.

Em 2003 é convidado a apresentar Sala Especial com sua obra na V Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo no Pavilhão Ibirapuera unindo sua produção arquitetônica a uma forma própria de registros fotográfico. No mesmo sentido interdisciplinar participa em 2007 da Exposição Internacional de Arquitetos paralela ao IX Fórum Mundial de Jovens Arquitetos em 2007 em Font Romeu, França. Em 2008 participa do projeto Fotograma no Cine Belas Artes Liberdade em Belo Horizonte com a exposição ‘Roteiros Incompletos’ apresentando fotografias voltadas ao lado humano do cotidiano, à observação dos espaços urbanos e arquitetônicos e ao interesse pela composição gráfica e plástica, sem deixar de lado a busca por um particular espírito critico e poético. Com o mesmo enfoque em 2010 expõe na galeria do ‘Barracão Botequim’ em Belo Horizonte a série ‘Cantagalo’ feita no morro de mesmo nome no Rio de Janeiro.

Em 2009 edita e lança o livro ‘Poslkantor: um breve olhar sobre a Polônia’ que dá inicio ao projeto ‘Cidades Visíveis / Visible Cities’ investigação que em 2012 recebe bolsa de iniciação científica da Universidade Fumec, onde leciona, para a confecção de livro e apresentações a serem lançadas em 2013, focalizando 14 cidades da América e Europa através de uma visão fotográfica, urbana, humana e literária.

ABRIGOS proposta para uma instalação fotográfica

Slide1instalação ABRIGOS com fotografias de JOÃO DINIZ
– fotografias de 75,0 x 50,0 cm impressas em papel/tecido canvas e envernizadas com spray específico,
– montadas em chassis tipo tela de pintura sem vidro e com requadro de madeira natural de 5,0 cm de profundidade
– divisão frontal de 0,5 cm afastado 0,5 cm da tela (modelo moldura infinita da Viv-Art BH), na fixação final afastar cada quadro em 2,0 cm do outro

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D  E  S  C  R  I  Ç  Ã  O

ABRIGOS é um duplo ensaio fotográfico onde o fotógrafo/autor investiga através da possibilidades de proteção de diferentes tetos, a importância do espaço de acolhimento como fator indispensável à sobrevivência humana e social.

Os dois ensaios são feitos na região de Caraívas no estado brasileiro da Bahia e abordam a questão da cobertura construída através da redução visual que elege dois elementos e ambientes praianos que criam proteções efêmeras e leves e que ficam sugeridas nas imagens.

Na primeira parte do trabalho o olhar está voltado para o alto onde a luminosidade e a cor prevalecem e a presença da edificação se manifesta através dos tecidos coloridos montados sobre delgados troncos de madeira. A composição gráfica que tira proveito da cor e da geometria sugere, através da leveza das barracas, a provisoriedade da presença humana, através de sua presença vivida e real, mas de pequena duração, seja no período de um dia, quando essas tendas são montadas e desmontadas, ou pela duração de uma vida que é bem mais breve que a presença do céu e do mar.

No segundo momento o foco está voltado para o chão e a existência do abrigo está sugerida pelas sombras de uma cobertura também ligeira que abranda sol e traça uma temporária e móvel geometria no plano inferior. Em oposição ao conjunto anterior, que aborda a leveza do vento, aqui a gravidade mineral do solo arenoso é reforçada pela a ausência do cromatismo vibrante, pela dureza da sombra, pelo contraste das luzes e pela geometria ritmada. A presença humana está também indicada na elaboração dos artefatos, na manipulação da madeira, na adoção dos módulos lineares que controlam a insolação e o conforto da permanência do corpo na projeção solar.

As contraposições ‘piso x céu’, ‘cor x sombra’, ‘brisa x areia’ e ‘natureza x construção’ propõem uma natureza de oposições  e confrontos e, paralelamente, uma possibilidade de entendimento e harmonia que acontecem através da existência destes breves espaços de permanência.

João Diniz: Arquitetura Expandida, texto de Fernando Pedro

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Como definir o perfil do amigo e arquiteto João Diniz? Como um poeta, um músico, um fotógrafo, um escultor, um desenhista, um cenógrafo ou um arquiteto contemporâneo que transita em todos os circuitos culturais de seu momento? Suas múltiplas faces se fazem presentes em cada projeto arquitetônico realizado, quando inscreve na paisagem das cidades sua marca reveladora de conceitos, formas, filosofia e poesia.

Diniz circula por vários países e, sempre em sua bagagem, tem sua cultura, seus conceitos e desenhos. Sua obra flui a partir da filosofia de vida, que defende a ausência de fronteiras, o simples estilo próprio, a leveza e o movimento no uso de materiais, como o aço e o concreto, que em seu traço ganham a leveza de um poema. Integra, na maioria de seus projetos, a arquitetura e as artes plásticas, quando traz para suas construções o parceiro e artista Jorge dos Anjos. Expande sua arte e cultura aos mais jovens, formando gerações por meio de suas aulas e também em seu escritório de arquitetura.

Possuidor de uma mente ativa, assim nos apresenta uma breve reflexão sobre a presença da arquitetura na contemporaneidade: “A contemporaneidade – ao mesmo tempo em que nos indica um caminho de futuro, na maioria das vezes duvidoso, apesar dos avanços da tecnologia – também nos vincula ao passado do qual viemos, numa possibilidade de diálogo entre tempos e saberes. Vivemos atualmente um ‘renascimento digital’, no qual as conquistas da comunicação global, por meio dos recursos informáticos diversos, podem tecer uma ponte entre passado e futuro, tentando minimizar o espanto humano perante um presente que, apesar da aproximação global, não trouxe a felicidade coletiva”.

E completa: “Assim, a fotografia, o desenho, a música, a poesia, a escultura, o vídeo, a performance e o design, podem ser entendidos como disciplinas que dialogam entre si e integram uma ‘transArquitetura’. Nela, além da produção de espaços que acolhem a sociedade, pode-se gerar ideias e produtos imediatos e participativos. A ideia de que todos, artistas ou não, possam interagir e participar dessas ações acompanha sempre os passos desta ‘arquitetura expandida’”.

Com inúmeras realizações, iniciou suas ações ainda criança, favorecido pelo ambiente familiar constituído por músicos, permitindo-lhe amplo acesso ao circuito cultural. Por ter muita sensibilidade musical, recentemente lançou o CD Ábaco, obra que complementa um maravilhoso livro de poemas com o mesmo nome. Ainda como estudante, descobriu a fotografia. E esta o levou à arquitetura. “Na fotografia, comecei a ver a questão dos espaços, enquadramentos, cortes, o que tem muito a ver com a arquitetura. Então, optei pelo curso por causa da fotografia. Eu queria ver o mundo através da lente da câmera”, explica.

A câmera tem sido sua fiel companheira ao longo de décadas, e os registros de sua circulação por variadas culturas foram apresentados em exposições. Agora, Diniz se detém à preparação do livro Cidades visíveis, com fotografias e fábulas – um registro autoral de suas viagens internacionais. Tal publicação se somará a diversas outras, como o livro João Diniz e o depoimento na Coleção Circuito Atelier, da C/Arte.

João concluiu seu curso de Arquitetura na UFMG, em 1980, quando iniciou sua relação de obras, que hoje, felizmente, vem acontecendo a todo vapor. Entre suas realizações destacam-se o Residencial Gameleira, o Edifício Capri, o Scala Workcenter, o Royal Golden Aparthotel e o Omni Center, para citar alguns entre os vários edifícios, residências, poemas e exposições. Dedica-se a inúmeras pesquisas, com destaque para a construção que possa ser sustentável.

Diniz considera o meio ambiente, os materiais empregados, o aproveitamento de energia, a relação das pessoas com a habitação, a reciclagem dos resíduos, a incidência da luz solar – entre outros fatores associados à estética, cultura, economia, realidade urbana e social – elementos que agregam valor à sua arquitetura expandida. Por meio dessa sensibilidade da criação, projeta suas obras a partir de um exercício multicriativo, utilizando-se de todos os seus talentos, principalmente em sua relação com um mundo sem fronteiras. Sempre pronto a criar soluções. Essa é a disposição de João Diniz, um autor fundamental para a nossa história, um permanente registro aos sentidos.

Fernando Pedro é Historiador da arte e presidente da Editora C/Arte e do Instituto Arte das Américas

Publicado na Revista Perfil em agosto de 2013

livro VISIBLE CITIES, observações arquitetônicas e urbanísticas itinerantes

Captura de Tela 2013-06-29 às 22.18.55VISIBLE CITIES see and purchase the book

Este livro é um relato em fotografia e texto de 14 cidades do Brasil, América do Norte e Europa e propõe uma leitura pessoal da experiência vivida pelo autor em cada uma destas cidades.

O trabalho pode também ser entendido como uma proposta de abordagem que pode ser feita por qualquer pessoa que queira interagir com cidades e espaços de forma semelhante. Desta forma a edição pode ser também entendida como um ‘procedimento itinerante’, uma proposta aberta e interativa. O primeiro texto do livro explica melhor este método.

Além do livro físico e/ou virtual, que pode ser adquirido e/ou visualizado na íntegra no link acima. este material poderá também ser conhecido, desenvolvido e ampliado em apresentações, palestras, oficinas, performances e outras viagens, feitas pelo autor e/ou convidados. Desta forma trata-se de uma dinâmica aberta que pode continuar em outras edições.

O material foi desenvolvido em seis anos de viagens e registros feitos pelo autor e foi realizado no programa Propic 2012-2013 da Universidade Fumec de Belo Horizonte, onde o autor leciona, que ofereceu parte dos recursos necessários para a montagem da edição.

Edição bilíngüe (português/inglês) de 420 páginas com fotografias, textos e projeto gráfico do autor, tradução e tratamento de imagens de Luiza Ananias (bolsista Fumec)  e colaboração de Carolina Araújo (bolsista Fumec) e Isabel Diniz. Textos do posfácio por Marcílio Gazzinelli, Fábio de Carvalho, Carminha Macedo, Marcelo Xavier e Álvaro Gentil.

MOBILIDADE URBANA, um desafio

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Uma das principais qualidades de uma cidade é o seu transporte público. Por baixo ou por cima da terra este serviço, quando eficiente, facilita muito a vida dos cidadãos que vivem e se movimentam diariamente por ruas e avenidas.

Não por acaso esse tema foi o estopim das manifestações populares que estamos vendo neste ano de 2013 em várias cidades brasileiras, onde nossos sistemas de transporte urbano estão atrasados em décadas em relação aos investimentos necessários para oferecer um mínimo de conforto e eficiência.

Em várias cidades evoluídas do mundo temos um sistema integrado de ônibus, troleibus, metrôs, ciclovias, áreas de pedestres e outros. A idéia que pode introduzir vitalidade nas cidades é evitar a qualquer custo a expansão do transporte individual que polui em maior escala e ocupa muito espaço tornando o tráfego caótico e requerendo amplas áreas de estacionamento.

A nossa língua portuguesa no Brasil parece não ter ainda a palavra contemporânea para substituir o antigo termo ‘bonde’, que já fez parte do nosso dia a dia no passado e que é o meio de transporte mais usado em cidades de orçamentos reduzidos em diversos países.

O Brasil deu um passo importante ao iniciar a produção de álcool e biodisel para combustível automotivo e de automóveis energéticamente híbridos, mas ainda mantém o modelo do automóvel individual como o principal meio de transporte para os que podem tê-lo.

Ouve-se atualmente a frase que diz: ‘país desenvolvido não é aquele em que os mais pobres podem comprar um automóvel, mas aquele em que os mais ricos usam um transporte público decente’.

Nos anos 70 a cidade de Curitiba, através de seu prefeito arquiteto Jaime Lerner, deu um exemplo ao Brasil e ao mundo ao criar um sistema integrado e simples de transporte publico baseado em ônibus em vias exclusivas, mas este modelo não conseguiu contaminar com igual eficiência e vontade política outras capitais brasileiras.

A mobilidade faz parte da saúde urbana, e este é um desafio urgente para o Brasil onde temos ainda muito o que aprender e fazer neste sentido. É uma carência que está visível em nossas cidades e que tem ajudado a levantar a voz de protesto das nossas ruas.

texto e foto (no metrô de Lisboa) por João Diniz

#SugiraBrasil

SUGIRA

SUGIRA BRASIL 2013: Imagem e hashtag para sugerir e divulgar propostas e idéias que possam fazer avançar o nosso querido Brasil… #SugiraBrasil

Fotografia e Arquitetura: Ciclo de Palestras

ciclo-2013--arquitetura-joao-webNa 4a feira 12/07/13 às 13hs na Universidade FUMEC em BH faço palestra no:

CICLO DE PALESTRAS DE FOTOGRAFIA FUMEC 2013 / Imagem Arquitetonica Contemporânea: Estratégias Fotográficas…

…à ser realizado em junho de 2013, este evento conta com a presença de convidados de diversas áreas, visando construir um panorama sucinto e múltiplo para a produção de fotografia na contemporâneidade.

Entendemos como extremamente relevante a discussão no âmbito acadêmico de aspectos da prática fotográfica, bem como seu processo de legitimação, suas raízes históricas e instâncias contemporâneas.

Compreender o papel da linguagem fotográfica na constituição e consolidação de identidades e significados sociais torna-se crucial na formação do processo crítico de produção (criação e manipulação) e leitura de imagens.

Nesta edição o cronograma do Ciclo é: dia 12 de junho , às 13hs, nosso primeiro encontro pontua o universo acadêmico, e as suas possibilidades de pesquisa em torno do tema com os professores e arquitetos João Diniz e Gabriel Malard.

O segundo encontro destaca prática e técnica e o mercado em Minas Gerais, com os profissionais de destaque Jomar Bragança e Eduardo Eckenfelds.

Com fala e apresentação de imagens em torno de até 30 minutos para cada palestrante, após, será aberto o debate com o público presente, prevendo o encerramento por volta das 16hs.

SETE SONHOS URBANOS

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SONHO 1: O VÔO

Era só querer, a linha do horizonte descendo, o corpo ganhado altura, perdendo peso. A cidade transformada em um mapa, e os campos, em um quadro verde de tons múltiplos.

Era necessário cuidado com os fios, com as grimpas e com as copas. Aproveitar o vento sem fazer nenhuma força seria lógico, a gravidade derrotada pelo pensa- mento, pela vontade.

Havia controle da velocidade ao avançar, a planta da vida passando toda abaixo. Casas, prédios, bairros, rios, um desenho com sombras lógicas, tudo conhecido e esperado, mas nunca visto desse ângulo.

Aprendi a voar com essas asas do querer, imediatas. Não será sempre, mas será possível esse prazer geográfico de, durante o sono, possuir a terra e o ar.

 

SONHO  2: A MÁQUINA

Do computador fui direto para a cama no quarto escuro com o clarão da tela ainda impresso por traz do olhar. Deitado no breu as imagens permaneciam visíveis. De olhos fechados poderia ver bem as luzes internas da busca de um arquiteto.

Um novo projeto pedia para acontecer, e aos poucos ia sendo domado e re- velado nas linhas eletrônicas multicores que definiam cômodos virtuais. As respostas vinham com as dúvidas, buscando soluções, empurrando a mão, o pensamento, o mouse, gerando planos tridimensionais que inauguravam novos espaços. Com a che- gada do sono, o brilho não se apagou. A vibração da máquina permanecia no cérebro, e as imagens continuavam a ocorrer na escuridão.

De repente, eu estava dentro desse desenho mental. À medida que percorria os espaços imaginários, dava-lhes forma, textura, cor. Era um jogo interativo de sentir e criar instantaneamente. O ato de projetar integrado ao desejo inconsciente. Um hall, uma escada, vazios, materiais, a clareza das soluções era incrível. No mesmo fluxo foi possível ganhar a rua, continuar o planejamento imediato da cidade que se transformava na mira de cada olhar ativo.

Os anos anteriores de reflexão foram suficientes para que as propostas se materializassem com eficiente clareza. Os transeuntes pareciam aprovar o recém-nascido edifício, bem como as novas calçadas, praças e ruas que apareciam e indicavam o caminho do dia que despertava bruscamente.

Um relógio soava com a luz matinal. O corpo voltava ritmado aos movimentos da manhã. O computador estava desligado ao lado. A cabeça um pouco confusa. Esta não havia sido uma noite de descanso tranqüila. O lápis em cima da mesa, os vários papéis impressos e riscados na noite anterior aguardavam inertes.

Sem mais demora, ligado o botão, a tela se iluminou, o olhar matinal se deita sobre as imagens, com algumas modificações, os desenhos buscariam encontrar as soluções antevistas há pouco no inconsciente.

 

SONHO 3: O CORPO

Era uma névoa rubra e morna. O corpo sentia um estranho prazer epidérmico, misto de constrangimento e gozo. A vontade era sair dali, correr para longe, mas havia uma provocante sensação de desafio e de transgressão. Seria apenas necessário assumir a própria imagem, encarar os olhos dos outros, dizer algo pitoresco e finalmente aproveitar a cena.

Uma estranha sensualidade dominava o momento na busca de carinho e de companhia. Tudo era rápido, a visão detia-se em nada. Não era um tempo fixo, ape- nas o susto da própria nudez, inesperadamente defronte a todos, mistura de situação íntima e pública, pessoal e urbana. Não exibicionismo, mas sinceridade.

Se os corpos se tocassem por fora as sensações seriam internas, uma excitação própria, um desejo de ser intenso. Os poros todos expostos ao vento e às vozes.

Eretos sonhos nas cavidades do sono. Líquidas noites de um erotismo irreal.

 

SONHO 4 : A LIBERDADE

De repente vejo retidos os meus movimentos ao ser parado no meio da rua por falsos policiais, gentis como touros em frente à capa rubra. Meus argumentos são inválidos e eles não têm justificativa para tão descarinhosa abordagem.

Uma sensação desconfortável, um crime que não cometi, uma culpa que não é minha. Desconheço o meu delito, rejeito estas algemas. Será que existe justiça, verdade, segurança e direitos?

O mundo tão cheio de canalhas, e logo eu vítima desses brutamontes nacionais…

Serei refém da paranóia de tempos pré-revolucionários ou pós-lissérgicos? Terei que explicar atrás das grades os meus diálogos imaginários com Chê, Hendrix, Lamarca, Morrisson ou Marigela? Saberei confessar em detalhes os assassinatos, trá- ficos, guerrilhas e assaltos que não cometi?

A realidade será diferente? Todos que estão realmente detidos ou livres me- recem esse estado? Continuo aqui constrangido em via publica, uma discussão interminável, um assunto que dura toda noite até que me sinta desperto desse constante pesadelo público.

 

SONHO 5: O SOM

Era quase um silêncio noturno, mas mecânicas melodias percorriam o ar. Um trem apitava ao longe, alguns motores passavam velozes, distantes e irreconhecíveis palavras dialogavam lamentos, alguma ave com seu canto aéreo anunciava o dia.

Sons dispersos, desconexos, de repente harmonizavam-se, confundiam-se, ritmavam-se. Alguma outra voz era introduzida num súbito grito. Aquela sinfonia na madrugada antecedia o diurno murmúrio urbano, propondo uma obra aberta que duraria o quanto necessitasse.

Sentia-me um maestro, um compositor, poderia até arriscar uns versos para o coral de buzinas cantar essa suíte matinal de ruídos. A vontade maior era levar aquela performance espontânea para o mundo da vigília.

Naquele orgasmo sonoro sabia-se que em breve tudo estaria perdido. A cidade voltaria aos seus mesmos rugidos insistentes, cansativos, estressantes, o dia se estabeleceria num crescendo dissonante.

Restaria apenas manter o sonoro instante por mais um pouco, propor um gran finale, uma inesperada apoteose, antes do despertar.

Agora, apenas o texto talvez possa contar algo daquela aventura musical…

 

SONHO 6 : A MONTANHA

A vontade de conhecer o mundo ia sendo satisfeita naquelas noites de sono tranqüilo. Os sonhos eram roteiros de viagens e iam revelando locais, sugerindo, à memória desperta, abstratos cartões postais onde desfilavam, quase reais, lugares, pes- soas, e até sons e odores. Cidades e países com suas diferentes luzes iam compondo aquele álbum mental de momentos inéditos e inesperadas descobertas.

A pequena ilha distante e sua alegre cidade costeira eram recorrentes nas dormidas mais confortáveis, revelando nitidamente seu mar profundamente azul; suas areias, pedras e faces intensamente negras; um idioma composto por um calei- doscópio de nacionalidades; e seus alimentos desconhecidos e saborosos.

O que mais chamava atenção era a animação da pequena metrópole. O final dos dias trazia a música e a dança, os cabarés exalavam calor e satisfação, as ruas repletas cantavam a riqueza da alegria de viver uma liberdade desenhada numa ousada política de intercâmbios e protestos.

As visitas oníricas àquela cidade permitiam reconhecer seus belos edifícios e ruas, mas a visão mais impressionante era a grande e misteriosa montanha que se impunha majestosa sobre toda a ilha e que, num último sonho, estava estranhamente envolta por uma bruma de cinzas e pedras que jorravam sobre as praias e telhados turvando a visão de todos.

Quando fui convidado a conhecer Saint Pierre da Martinica, no arquipélago das Antilhas, ressurgiram claras as lembranças daqueles distantes sonhos insulares. Por incrível coincidência, iria talvez rever os perdidos locais presentes naquelas noites de sono.

Ao chegar lá o sentimento de estar retornando ao lugar era muito forte. As calçadas, as praias e a geografia pareciam familiares, mas havia uma diferença fatal: as principais construções eram ruínas de pedras escuras.

Todos ali comentavam que há mais de 100 anos a grande montanha havia explodido. O vulcão soterrara quase todos os seus habitantes e aquela ex-bela cidade, que, desde então, lutava para encontrar sua antiga felicidade e brilho.

 

SONHO 7: A LENDA

Naquela noite a imagem ocorreu numa breve nitidez. Ao dobrar uma esquina de Belo Horizonte sinto-me fora do tempo e me vejo numa viela medieval. A luz das tochas e os trajes revelam a súbita presença de uma outra época. Numa confusão de idades chego ao passado.

Ao lado da igreja gótica, um templo grego. Na larga praça renascentista, ins- crições pré-históricas e um jardim zen com plantas tropicais. Algumas odaliscas dan- çam o samba, cortesãs cantam mantras safados enquanto uma orquestra de cordas afina os primeiros acordes de uma trágica suite.

Um cavalo branco cruza as trevas num agouro desconhecido de datas e de fatos. Mais além estão as caravelas. Seus mastros tremulam no breu e uma frenética ação vem de dentro, com as velas içadas, zarpariam de manhã num prenúncio de descobrimentos.

As tavernas iam silenciando enquanto a areia passa pelo funil de vidro e os pavios queimam tremulantes. Alguns vultos se apóiam uns nos outros. Uma coruja cruza o céu, sublinhando com suas asas a crescente lua.

Passos sobre pedras, botas rudes traçando caminhos humanos. Envolto em uma capa negra corro insone. O lençol é um porto imaginado, a segurança invertida de um sonho.

Ao descer as escadas, o caos. A estação do metrô está repleta de fumaça e chamas. As pessoas apavoradas saem de uma bruma de terror, entre alarmes, estampidos e gritos; muitas sirenes interrompem o sono de todos.

Que estranha forma de acordar…

textos e ilustração: João Diniz 

A VIAGEM

971037_10151564158269194_1568205384_nCada ser tem a geografia de seu corpo, seus limites de rotina, seu ritmo de vida e maneira de passar o tempo, mas muitos são favoráveis a quebrar este pulsar das obrigações e consequentemente a dinâmica pessoal e ritmada dos espaços cotidianos.

A busca do desconhecido amplia as áreas do saber e o mapa mental das pessoas, por isso o fascínio que muitos têm pela viagem, ou mais, pela abertura voluntária do espirito para novos locais e tempos a serem vividos.

A viagem pode tirar os seres de seu usual conforto mas inaugura um álbum de experiências e registros que ganha corpo e vai sempre se ampliando na memória de cada um.

Seria absurdo medir a sabedoria de alguém pela quantidade de lugares em que já esteve, mas seguramente uma diferenciação de vivencias amplia a absorção do novo ampliando a curiosidade e tolerância dos indivíduos.

Na raiz mental de cada um estão ramificadas as cidades e personagens que conheceu, as amizades, os momentos, os espantos, os gostos, olfatos e prazeres destes caminhos percorridos.

E depois da jornada nada como o ninho para digerir emoções e preparar o próximo voo.

(foto e texto escrito e lido p/ Joao Diniz no programa Viamundo da Rádio Inconfidência 100.9 comandado pela jornalista Daniella Zupo)