Oscar e as sonoras lembranças da Pampulha

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Vim morar em Belo Horizonte com menos de um ano de idade e quando comecei a descobrir seus espaços, ruas e edifícios fui dando conta que a cidade combinava bem com as canções da bossa nova que meus pais ouviam em casa.

Uma visão inicial de modernidade naquela época intuitivamente já habitava minha mente infantil e naquele começo dos anos 60 os nomes de Tom Jobim e Oscar Niemeyer se confundiam nos ambientes internos e externos de minha vida.

Eu reparava as construções em curvas e retas elegantes da cidade e me diziam que eram deste tal de Niemeyer e, mesmo que não fossem na verdade todas dele, estas obras compunham para mim um cenário urbano para a trilha sonora doméstica proposta pelas batidas moduladas do violão de João Gilberto.

Muitos anos depois eu estava pela primeira vez em Barcelona e fui visitar o colega Josep Maria Botey que acabava de receber os primeiros exemplares do livro que escrevera sobre Niemeyer para a coleção Paperback da Gustavo Gili, e ele me pediu que levasse alguns exemplares ao Oscar no meu regresso ao Brasil. Eu disse que sim e ele me entregou o pacote.

No dia que cheguei em BH, depois de cansativa viagem, consegui o telefone do Niemeyer e liguei para dizer da encomenda e ele parecendo entusiasmado me disse que o encontrasse em seu escritório na próxima manhã e desligou. Não tive tempo de dizer que estava recém regressado à minha cidade que não era o Rio de Janeiro e mesmo assim, sem desfazer as malas, segui naquele dia para lá num ônibus noturno.

Anos depois, numa noite de 2012, a TV informa que Niemeyer acabava de falecer. Um longo filme passa então por minha cabeça lembrando os tempos da infância modernista, a descoberta da Pampulha, de Ouro Preto, Brasília e até de algumas cidades estrangeiras, os estudos na escola de arquitetura em BH plenos de questionamentos aos cânones de um passado recente, e a admiração pelo longevo personagem que devido ao seu humanismo produtivo esteve sempre sujeito a muitos elogios e críticas.

Neste momento me invadiu uma grande saudade e uma sensação de agradecimento por ter sido contemporâneo da figura brasileira que representava uma importante parte da arquitetura do século XX. Este sentimento de perda de certa forma se confortava na certeza que o personagem já bastante idoso naquele instante passava, merecidamente, a ser eterno.

Mas a lembrança que mais me invadiu, na hora da notícia fúnebre, foi a daquela clara manhã carioca em que, após sacolejar no ônibus leito, cheguei ao escritório do Oscar no posto 6 em Copacabana.

Honrado com a sua informal acolhida, disse a ele que a cidade de Belo Horizonte com suas obras modernas, tinha definido a minha vocação pela arquitetura gerando simultaneamente a minha grande admiração por ele, que abrindo o pacote por mim entregue e folheando um dos livros, surpreso com a bela edição e o redesenho de vários dos seus projetos, me disse, como se não fosse ele o principal artífice daquele trabalho:

– Que cara c. d .f. esse Botey…

texto e desenhos por João Diniz

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