TRANSFORMAÇÕES PURISTAS

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DEPOIS DO CUBISMO, obra de Amedée Ozenfant e Charles Édouard Jeanneret, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Le Corbusier, traz questões que estão na base da revolução da arte moderna ocidental.

resenha crítica por João Diniz

Logo após o término da Primeira Guerra Mundial, a Europa vivia uma nova esperança transformadora, a sociedade compreendia aquele momento como uma época de renovação e modificações vitais. A brutalidade do conflito armado era entendida por muitos como necessária num processo de evolução e seleção natural dos verdadeiros valores da civilização e da cultura.

Neste cenário de revisão histórica se encontram em Paris dois jovens artistas com pouco mais de 30 anos, Amedée Ozenfant e Charles Édouard Jeanneret, que mais tarde adotaria o pseudônimo de Le Corbusier e se tornaria um dos principais pensadores, artistas, urbanistas e arquitetos do século 20.

Ozenfant era um ativista das artes e da cultura na cidade, editava a revista Élan, estava envolvido com pintura e desenho industrial, e pertencia a uma família ligada a uma empresa de obras públicas, pioneira na utilização do concreto armado, um novo material que surgia. Le Corbusier, arquiteto autodidata, acabava de chegar da Suíça, seu país natal, e tentava em Paris levar adiante a Societé pour l’ aplication du betón arme, procurando meios de construir sua proposta de habitação social denominada Casa Dom-ino.

Ozenfant inicia Le Corbusier na pintura e na vanguarda artística da cidade marcada naquele momento pela crise do Cubismo, movimento estético vigente desde antes da guerra. Os dois artistas compartilhavam afinidades e interesses comuns pelo modernismo industrial e científico e pela arte antiga italiana e grega e passam a discutir amplamente as questões e caminhos da arte e da cultura daquela época. Esses debates entre os dois culminaram na publicação em 1918 do pequeno livro/manifesto Depois do Cubismo, onde propunha uma nova estratégia estética e existencial denominada Purismo de abrangência conceitual que abarcava a pintura, a arquitetura e outras ações artísticas.

Esse livro é freqüentemente citado como importante marco teórico na cultura do século 20 e acaba de ser publicado pela Editora Cosac Naify numa linha de ensaios de pequeno formato integrando a série Fontes da arquitetura moderna, elaborada por Carlos Ferreira Martins, professor da USP São Carlos, e visa preencher uma lacuna na bibliografia disponível em língua portuguesa sobre o período de constituição e afirmação da arte e da arquitetura modernas.

O Purismo, proposto no livro, aparece como um novo movimento cultural que promove um retorno à ordem e uma reação à realidade caótica de uma França brutalizada e profanada pela guerra. A guerra, para os puristas, era um marco temporal tão decisivo quanto o Cubismo, movimento reconhecido na época como o já esgotado e último advento das escolas artísticas, mas ao mesmo tempo a única manifestação de arte que ainda apresentava alguma importância, numa avaliação crítica que não deixava de reconhecer nele um certo valor.

Mesmo assim, a contribuição do Cubismo, segundo a análise dos puristas, apresentava grande debilidade teórico-doutrinária e um forte caráter ornamental e decorativo, o que o enfraquecia e o tornava uma arte menor. Muitas dessas críticas foram posteriormente revisadas e abrandadas na revista L’Esprit Nouveau, editada por Ozenfant e Le Corbusier. Mas no momento inicial estes ataques e provocações polemistas não pouparam importantes artistas da época como Derain, Picasso e Braque.

O programa purista buscava uma arte alinhada com uma ordem matemática e lógica propondo um retorno à figuratividade e à natureza ecoando o espírito daquela época moderna onde a ciência e a industrialização eram as novas forças transformadoras.

A figura humana aparecia como o grande tema, aliada a objetos industrializados da vida cotidiana e a uma estética da máquina e de formas precisamente delineadas, numa arte que valorizava mais a concepção que a técnica, mais os aspectos invariantes da obra do que os seus atributos acidentais, excepcionais, inorgânicos, protestativos ou pitorescos.

O livro Depois do Cubismo, na edição da Cosac Naify, conta com texto introdutório de Carlos Ferreira Martins, que aborda o ambiente cultural na França e Europa daquela época e as condições históricas que dão origem à obra. Devido ao legado posterior de Le Corbusier, o livro surge como importante material de estudo relativo aos primeiros passos do importante arquiteto e da arquitetura moderna.

O texto original está dividido em quatro capítulos. O primeiro é A situação atual da pintura, no qual os autores traçam um panorama da arte da época, abordando procedimentos clássicos, e citam artistas e movimentos estéticos anteriores, chegando a uma análise crítica do Cubismo.

A segunda parte do livro, denominada A situação da atual da vida moderna, que é diretamente atribuída a Le Corbusier, inicia com um elogio à natureza que é definida como “jazigo de todos os valores concebíveis por nossa razão”. Essa afirmação inicial é seguida por uma apresentação e análise do “espírito moderno”, onde aparece um elogio à máquina e ao espírito industrial e coletivo que indicam a semente da nova arquitetura, em que reinará a harmonia e o rigor, distantes da arquitetura decorativa e superficial que então reinava na Europa.

Segundo os autores, essa passagem transformadora se deu com a chegada dos engenheiros e construtores que, através das novas pontes, fábricas, barragens e outras obras gigantescas, trouxeram de volta o caráter utilitário às construções, onde se pressente praticamente uma nova “grandeza romana”.

O terceiro capítulo, As leis, afirma que uma grande arte partirá necessariamente de uma escolha analítica por parte dos sentidos humanos, de materiais e procedimentos pertencentes ao universo presente, que gerarão uma associação que se elevará acima de contingências grosseiras e fugidias do momento e expressarão as leis que são a causa do deleite de nosso espírito.

Aparece então a defesa do paralelismo entre arte pura e ciência pura, nas quais apenas os procedimentos técnicos diferem, os objetivos são os mesmos, ou seja, a importância em ambos os campos da expressão das leis naturais na busca de constantes conceituais, o invariante, ou a ação fundamental que embasa a verdadeira criação científica ou artística.

O último capítulo, intitulado Depois do Cubismo, discorre sobre atributos inerentes à obra de arte, como as leis da plástica, a escolha do tema, o discurso sobre a forma e a cor, sobre as proporções, sobre a concepção que ocupa papel crucial no fazer artístico e sobre as deformações e os efeitos “possíveis e permitidos” à nova arte. O livro termina com a definição e a proposição em tom de manifesto teórico do Purismo. A publicação traz ainda uma lista de leituras recomendadas e biografia dos autores.

Nos anos posteriores à publicação do livro, os autores estiveram envolvidos em uma série de exposições artísticas, publicações, projetos e obras arquitetônicas, alinhados com os conceitos iniciais do Purismo, mostrando que este manifesto teria a força de uma semente fértil que mudou a face do século 20.

Ozenfant, até a década de 60, quando faleceu, desempenhou uma importante carreira como artista plástico, teórico e professor fundador de sua própria escola, atuando em diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Suas obras fazem parte do acervo dos principais museus do mundo. Seus textos são fundamentais para o entendimento da arte e cultura modernista.

Le Corbusier, também falecido nos anos 60, se transformou numa das figuras cruciais para o entendimento do século passado, não só no campo das artes, arquitetura e urbanismo, mas na definição deste Ésprit Nouveau, o Espírito Novo, que transformou definitivamente a percepção que temos do mundo contemporâneo. Seus primeiros projetos conhecidos como casas puristas, uma delas projetada em 1922 para Ozenfant, serviram como direção tanto para seus projetos futuros em diferentes continentes, como para o trabalho de arquitetos em todo o mundo, o que se convencionou chamar de arquitetura moderna.

Em alguns momentos da segunda metade do século passado, a cultura de massa tentou transformar estes procedimentos puros, seguros, e aparentemente de poucos riscos gráficos e existenciais, no paradigma de uma arquitetura culturalmente segura, ampla e internacionalmente assimilada pelos arquitetos e pela sociedade. Esse entendimento generalizante acabou gerando exemplos às vezes de grande pobreza repetitiva, às vezes de indiscutível valor cultural, mostrando que o manifesto purista propõe um caminho ainda válido, quase 90 anos depois.

Nas duas últimas décadas do século 20, o Purismo – às vezes também denominado genericamente de modernismo ou minimalismo – principalmente em arquitetura – passou por várias crises e questionamentos nos períodos conhecidos como pós-modernistas, deconstrutivistas ou expressionistas, que aparentemente se opunham a ele. Na verdade, esses caminhos nem sempre convergentes demonstram a vitalidade e a inclusão dessa cultura moderna, fundadora e abrangente, que continua a seguir sua linha ao longo da história.

Como queriam os primeiros puristas, e como queremos hoje, a sociedade contemporânea e do futuro, para ser vital e sustentável, não poderá nunca se afastar da parceria com a natureza e com a máquina, da responsabilidade sobre o passado e o futuro, da consciência sobre o corpo e o espírito.

livro: DEPOIS DO CUBISMO de Ozenfant e Jeaneret (Le Corbusier), introdução de Carlos Ferreira Martins, tradução de Célia Euvaldo, Cosac Naify Editora, 88 páginas
Resenha crítica escrita por João Diniz para o PENSAR suplemento cultural do jornal Estado de Minase publicada em 22/10/2005
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