ARTE DE OBRA

ARTE DE OBRA


 

 

 

 

manuscrito original para o livro de mesmo nome da Ediora Manuscritos, lançado em 2010 com fotografias de Cristiano Machado e texto de João Diniz

1.

No princípio era a Natureza…

A natureza da vida, das formas e das cores,

princípio universal de movimento e de repouso,

causa final, inerente por si só e não acidental,

forma e substância daquilo que se torna único.

A natureza está na matéria como ordem,

na reunião gerada pela dinâmica do tempo,

na virtude superior manifestada nos objetos,

no sentido de direção nato do engenho humano.

Natureza é sinônimo de união,

fator de desejo e distinção decisiva,

uma lei do instinto, da razão e do pensamento

ativo fundamento dos primeiros cientistas,

que está presente no ritmado caráter matemático,

e na urgente necessidade inventora e transformadora

da ordem universal, indiferenciada e original.

Consoante e concordante consigo mesma,

ela sistematiza e conecta fenômenos,

dando nova forma aos ditames do acaso que são

descobertos pela experiência empírica e casual,

no regular pulso de tempo e espaço da existência.

2.

A Natureza reflete a alma da matéria,

exteriorizando a sua ideia de ser

na relação acidental de ordens eternas,

numa manifestação do absoluto e do espírito

em toda sua espontaneidade e liberdade.

Campo de observação da ciência e da arte,

ela está na linguagem cifrada do acaso

nas mensagens das eras e das línguas.

Para além dela só há imitações…

3.

A Arte a princípio estava ligada à ciência,

que é a sabedoria do necessário e do Natural.

Depois evoluiu deste orgânico ser universal

se apresentando como Arte do conhecimento,

da observação, da contemplação, do aprendizado;

e ainda como Arte da ação, da operação, da direção.

O engenho humano está embebido em Arte,

onde as atividades ordenadas separam-se da Natureza

passando a incorporar o hábito e a razão da produção.

Aí estão, como exemplo, as artes manuais e mecânicas,

ou mesmo a arquitetura, a engenharia e a medicina,

determinação da vontade, do gênio e da invenção;

que se contrapõem às leis universais da física, da matemática,

da química, da astronomia, dos mistérios, divinos ou não.

Assim a Arte pode ser entendida como ponte

entre a ciência e a experiência: uma compreensão nova.

E ela pode ser análoga e fabricar objetos, como na arquitetura

ou ser cooperativa e ajudar a natureza, como na medicina

ou ser prática e agir sobre os homens, como na música.

Distinguem-se também as artes liberais e as artes servis,

ou sejam, as que se alinham ao espírito da razão e da beleza

em contraste aos ofícios diversos da mecânica e do corpo,

onde a estética busca o prazer em representações várias

enquanto as máquinas cumprem operações de necessidades.

A Arte da Obra aparece como atividade ordenada

indicando a técnica ou a normatização dos procedimentos.

Esta técnica é a continuidade original do fazer artístico,

nela os homens conjugam deleite e sobrevivência

e definem as culturas e ambientes a que pertencem.

A técnica está sempre repleta de intenção e finalidade,

provém de um desígnio, de uma descoberta, de um projeto.

4.

Nas idades terrenas dos minerais e dos metais

a transformação define uma história escrita em fogo.

A evolução do raciocínio, diretor da intuição,

da inteligência e da lógica, conduz a caminhada.

Nos símbolos de cada tempo estão as possibilidades,

efeitos da ousadia e dos avanços que inauguram linguagens,

e apontam o futuro na tentativa e erro de cada ser.

5.

Universo de corpos em movimento: átomos, planetas,

refletidos na fusão siderúrgica dos artefatos novos

e no organismo mineral das ferramentas e das peças.

A ideia de uma nova harmonia, observada e modulada

está no dialogo das partes deste corpo férreo e frio,

aquecido pelo movimento, dinamicamente circular,

que sugere pulsação e fatiga, produção e repouso,

em uma órbita contínua que integra ideia e produção.

6.

Que a ordem harmônica de suas partes consoantes

não seja o repouso do seu espírito de sangue e ar.

Ao ordenar o sono dos metais em sua breve espera

os planos começaram a nascer gráficos e numéricos.

Não será infinita esta vitalidade de encaixes e toques,

que no realismo da máquina cumprirá o seu ciclo

numa vida útil ligada e desligada a cada seção.

7.

Por mais lógico e preciso que seja o projeto

sempre haverá uma surpresa nesta geometria.

Na impossibilidade do comando absoluto

haverá espaço para o raio de sol, para a brisa,

para a reflexão inesperada da cor e do espírito,

para o encontro azeitado entre o acerto e a critica.

A energia propulsora funciona forças diversas

num contínuo sempre previsto mas nunca perfeito.

8.

Gestos de membros vários tocam os controles

no momento exato da liberação dos fluxos.

O olho percebe a seta que indica o instante.

É a balada dos gases e dos líquidos comprometidos.

A sinfônica ideia que não pode falhar por otimismo.

A previsão positiva dos fatos será sempre ingênua

se antever somente o sucesso, ou o fracasso.

9.

Agente de transformações em sua existência,

engrenagem de ossos e veias e saliva e sonho,

não apenas uma peça viva nesta grande engrenagem

mas o sentido e alma de muitas conquistas.

O homem, e sua natureza mãe, será sempre o alvo

dos seus próprios triunfos e desmandos.

Sua emoção estará visível ao final de cada dia,

seu ofício será para si a vitalidade restauradora

ou o sacrifício opressor, o pavio da revolta.

O trabalho retorna à delicadeza da família

a produção colocada sobre a mesa de jantar.

10.

A Obra é o objetivo operador do indivíduo,

sua meta e alvo claro, produto e fim em si.

Mas na prática do caminho a marcha surpreende.

Nem todos têm o mesmo foco e intento,

um vê o céu, outro o vento, outro o pássaro,

o sol que gera a energia pode também queimar a planta.

Cada olho mira sua reta de intenções e possibilidades.

O panorama da natureza e da vida é amplo de espaços,

nele convivem a beleza, o desejo, o orgânico, o artificial,

e também o feio, o sórdido, o insano, o irreal, o podre.

Não será a primeira imagem que definirá o sentimento.

O contorno das formas esconde verdades relativas.

A validade das lições sempre pode ser questionada,

no bem que talvez produzem, nas in-certezas que geram.

O convite é para que por trás da figura e da voz

cada um busque seu retrato e seu texto.

As ideias estão abertas, nada é definitivo.

Um real artista não saberia dizer se sua obra de arte

sobreviveria ao tempo e ao entendimento dos outros,

mas sendo verdadeiro artista prosseguiria com arte

em sua obra de viver e ver o mundo com novo olhar.

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