SE A CIDADE TIVESSE UM CORAÇÃO…

SE A CIDADE TIVESSE UM CORAÇÃO…

Reflexões expandidas sobre a

Praça Sete de Setembro em Belo Horizonte, Brasil

por João Diniz, arquiteto MSc

Texto para a conferencia sobre‘Centros Urbanos em Transformação’ a ser apresentado em outubro de 2010 na Gdansk University of Technology, em Gdansk, Polônia.

Gênese de novos cenários

As 13 caravelas portuguesas partiram de Lisboa no ano de 1500

buscando as rotas colonizadoras e econômicas das índias orientais.

O almirante Pedro Alves Cabral evitando calmarias nas costas africanas

desvia suas embarcações em direção oeste, e em 21 de abril

vislumbra terras inesperadas: um monte alto, batizado Pascoal

naquela Semana Santa que mudaria a linha da história,

e desembarca pela primeira vez no continente americano

em Porto Seguro na região hoje conhecida como Bahia (fig. 1).

Neste local foi erguida a primeira cruz, celebrada a primeira missa

e em nome do rei de Portugal, Pedro Álvares toma posse da terra,

observado por atônitos indígenas, os naturais proprietários daquele solo.

Uma vermelha árvore nativa cor de brasa sugere o nome da terra: Brasil,

e aí começa, em inspiração ígnea, uma saga de constantes transformações.

A Carta do Descobrimento é enviada ao rei de Portugal noticiando o evento,

o almirante Pedro permanece por dez dias nas praias recém descobertas

e retoma à desejada rota das índias, ele não mais retornaria ao continente

mas deixa fixada a bandeira portuguesa e a perspectiva de um novo império.

Ocupações Costeiras e interioranas

Os interesses Portugueses e Espanhóis pelas terras da América

fizeram que os dois países assinassem em 1494 o Tratado de Tordesilhas

em que dividiam entre as duas coroas as terras descobertas e por descobrir.

Uma linha imaginaria a 370 léguas a oeste do arquipélago de Cabo Verde

passava pelo novo continente e dividia a posse das novas terras

Cabendo a Portugal as áreas a leste da linha e a Espanha as de oeste.

Devido aos poucos recursos para a colonização das novas terras

Dom Manoel, o rei de Portugal, cria em 1504 as Capitanias Hereditárias

ou faixas de terra paralelas no sentido leste-oeste que eram doadas (fig. 2)

a destacados cidadãos portugueses que governariam e explorariam

as áreas podendo transferir esta posse aos seus descendentes.

Este sistema assegurou a posse da terra por parte de Portugal

e funcionou até o ano de 1822 o ano da independência do Brasil,

quando estas capitanias passaram a ser denominadas províncias,

passando por diferentes redivisões, anexações e redefinições de limites.

E até o inicio do século XVIII a ocupação do território brasileiro se deu

preferencialmente nas regiões costeiras em contato com a metrópole

e com as outras capitanias vizinhas através do oceano Atlântico.

A partir de 1700 várias expedições passam a explorar o oeste

onde se descobre a riqueza do ouro, gerando novo ciclo econômico

na recém criada capitania de Minas Gerais, cuja capital era Ouro Preto.

Esta nova atividade econômica desloca o foco de interesses costeiro

para o interior brasileiro gerando o desenvolvimento extrativista (fig. 3)

visível na capital Ouro Preto e também nas cidades de Mariana, Sabará,

São João del Rei, Serro, Congonhas do Campo, Ouro Branco, Diamantina…

Este novo progresso pode ser também sentido nos campos das urbanização,

da arquitetura, da escultura, da literatura, das artes e da cultura em geral.

É o barroco mineiro que faz de Minas Gerais cenário histórico

de importância marcante no panorama político e cultural nacional.

Esta efervecência intelectual fez que em 1789 a região fosse palco

do movimento conhecido co Inconfidência Mineira, movimento separatista

que propunha o Brasil como pais independente livre do jugo português,

da censura, das altíssimas taxas, da dominação política e econômica.

Esta insurreição gerou o grande mártir e herói nacional: o Tiradentes

ou Joaquim José da Silva Xavier, dentista e líder intelectual e político.

Ouro Preto foi a primeira cidade brasileira a ser declarada em 1980

pela UNESCO Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

Ares Republicanos

Com a escassez do ouro no final do século XVIII surgem novas economias

dando espaço ao ciclo do gado e da agricultura em outros pólos regionais.

O final do século XIX vê surgir o ciclo do ferro nas montanhas que ligam

Ouro Preto à Serra do Curral del Rey em reservas de 15 bilhões de toneladas

a cidade com sua geografia montanhosa não suporta mais ser a capital

do estado com sua nova economia, em uma republica recém proclamada,

em um novo século que queria ver distante os tempos coloniais.

O então presidente da republica Afonso Pena decide em 1893 construir,

junto à Serra do Curral del Rey, a cidade que se chamaria Belo Horizonte,

inaugurada em 1897, a nova capital do estado de Minas Gerais.

Os engenheiros Aarão Reis e Francisco Bicalho dirigem o projeto e a obra.

O traçado sobrepunha uma dupla trama ortogonal em ângulo de 45 graus,

a malha de quarteirões quadrados de 100 metros com suas ruas retilíneas

é cortada pela segunda trama diagonal mais espaçada de amplas avenidas

formando um dinâmico sistema de circulação com suas linhas e direções.

As variações do relevo acopladas à rigidez do plano urbanístico se fundem

propondo uma aparente contradição entre traçado e topografia propondo

uma possível união entre a sensualidade/relevo e a razão/projeto (fig.4)

que ajudam a definir abstratamente o caráter da cidade e de sua gente.

Este plano racional é limitado pela Avenida do Contorno, perimetral e circular

num diâmetro de aproximadamente dois quilômetros dando espaço

a largos e praças em pontos especiais do traçado e da topografia.

O projeto une as tradições urbanísticas das metrópoles do século XIX:

a quadricula racional americana é corrigida por amplas artérias oblíquas,

por espaços vazios, e pela preocupação com perspectivas monumentais

de inspiração européia com explicitas influências de Haussmann.

Alvo de convergências

O cruzamento ortogonal das duas principais avenidas da cidade

a Afonso Pena e a Amazonas é interceptado diagonalmente pelas ruas

Rio de Janeiro e Carijós, formando um asterisco de oito direções.

Este local no centro geográfico do traçado de Belo Horizonte é conhecido

como Praça Sete de Setembro, batizada em 1922 por ocasião

da comemoração do centenário da Independência do Brasil.

A praça é reconhecidamente o coração simbólico da cidade,

ponto do centro radiador da pulsação econômica e social de toda a cidade.

Ao longo de sua historia a praça apresentou diferentes configurações.

No ano de 1902 é inaugurado o sistema de bondes da cidade (fig. 5)

e na praça está a principal estação de conexão e transbordo.

A praça apresenta também construções simbólicas importantes

como o edifício do Banco Hipotecário de 1911, ainda existente,

o obelisco central de 1922 o ‘Pirulito’ projeto do arquiteto Antonio Rego,

o Cine Teatro Brasil de 1932 de Ângelo Alberto Murgel, em estilo art deco

revitalizado e transformado pelo arquiteto Alípio Castelo Branco

em Centro Cultural Vallourec & Mannesmann em 2010,

o edifício do Banco da Lavoura projetado em 1946 por Álvaro Vital Brasil

e merecedor do prêmio de arquitetura na 1a Bienal de São Paulo,

e o edifício do Banco Mineiro da Produção de 1951 de Oscar Niemeyer.

A praça não funcionava como espaço somente destinado ao público.

Fotos das primeiras décadas do século XX mostram o convívio dos pedestres

com diferentes veículos como bondes, automóveis e até animais (fig. 6)

mostrando sempre sua existência como um ambiente multi funcional.

No começo dos 1970s os quatro quarteirões contíguos ao centro do espaço

são fechados ao tráfego de veículos e aí sim se configura o espaço peatonal,

destinado à passagem e permanência exclusiva de pessoas,

criando então a real praça, ainda que fragmentada em quatro trechos.

Apesar de criado o local exclusivo para os pedestres estes setores

não chegam a receber um projeto de desenho urbano significativo.

Na verdade a criação destes quatro espaços ocorre também em virtude

de correções necessárias no sistema de trafego de veículos que pretendia

limitar o cruzamento e fluxo de veículos apenas às duas avenidas. (fig. 7)

Em 1989 a prefeitura de Belo Horizonte propõem o BHCentro,

Concurso Nacional de Idéias para o Centro de Belo Horizonte.

O arquiteto Mauricio Andrés em sua linha de pensamento ecológico

visualiza a área central da cidade numa perspectiva de baixo consumo

de energia e de esforços de deslocamento, onde a topografia seria aliada

à  mobilidade urbana e os deslocamentos aconteceriam evitando

subidas acentuadas, invertendo a lógica funcionalista e linear do trafego

e optando por um sistema mais orgânico e integrado com a geografia.

Este sistema estaria integrado ao transporte publico e indicaria

pontos focais de interesse que apareceriam como novas praças, ou oásis,

na área central ocupada preferencialmente por edifícios e vias de tráfego.

Assim foram definidos pontos específicos que teriam soluções diferenciadas

e para tanto Mauricio Andrés convida cinco escritórios de arquitetura

que se ocupariam de cada um dos pontos específicos por ele definidos.

Estava então formada a equipe 3834 composta pelos escritórios/equipes

de Éolo Maia/Jô Vasconcellos/Flávio Grillo que se ocuparam

da área central em torno da Praça Sete de Setembro e arredores,

de Álvaro Veveco Hardy/Mariza Machado Coelho

que se dedicaram a novas propostas em torno da estação rodoviária,

de Gustavo Penna e associados que projetou o eixo da rua Caetés

faixa comercial que Gustavo denominou ‘Eixo dos Três Caminhos’,

de Jason Santa Rosa que se ocupou do mercado de flores,

e da equipe formada por João Diniz/Graça Moura/Márcia Moreira que criaram

a ‘Alameda das Palmeiras’ em ponto especial da avenida Amazonas.

Com a participação de quase 80 equipes dos quatro cantos do país,

o concurso premiou três equipes coordenadas por Manuel Rodrigues Alves,

por Ana Maria Schimidt/Maria Elisa Baptista e Mauricio Andrés Ribeiro.

O júri do concurso definiu destaques projetados por cada equipe como

as propostas para a estação rodoviária, o ‘eixo dos três caminhos’ e a

‘alameda das palmeiras’ projetadas pela equipe 3834 e a proposta para

a revitalização do Parque Municipal proposta pela equipe Schimidt/Baptista

cujo projeto foi contratado, detalhado e executado em 1992.

A partir destes resultados a Prefeitura Municipal convidou a equipe 3834,

em 1991, a executar novo projeto de revitalização da Praça Sete e

da antiga estação de bondes transformada em Mercado de Flores.

Os cinco escritórios que compunham a equipe 3834 decidiram inicialmente

discutir conjuntamente  os dois projetos e depois dividir os cinco projetos:

o Mercado das Flores e os quatro trechos de pedestres da praça Sete.

À equipe coordenada por Jason Santa Rosa coube o Mercado das Flores,

e às quatro outras o conjunto da praça incluindo a área central e os trechos.

Academias Informais

O ativo ambiente cultural existente em Belo Horizonte no inicio dos 1990s

contava com a participação dos arquitetos da equipe 3834.

A cidade passava desde o inicio dos 1980s por um renascimento intelectual.

As vanguardas culturais de Minas Gerais que antes migravam naturalmente

para as metrópoles brasileiras do Rio de Janeiro e de São Paulo,

resolveram, a partir daquela época, se manter na capital de origem

num misto de valorização das próprias origens e raízes, e na crença que

um novo centro irradiador de pensamento nascia na cidade.

Já estavam em curso as realizações musicais do ‘Clube da Esquina’,

movimento de musica popular comandado por Milton Nascimento,

do grupo de dança Corpo que ganhava reconhecimento internacional,

do grupo teatro de Galpão, do grupo Uakti de experimentações sonoras,

e de diversas realizações nas artes plásticas, literatura e escultura.

Estas manifestações se davam em um ambiente integrado e informal,

os espaços públicos da cidade eram o palco natural de debates,

os bares, as galerias de arte, os teatros, as festas e as residências

eram os fóruns espontâneos de inspiração e evolução de idéias.

Os arquitetos queriam também participar daquela ebulição.

Éolo Maia e Álvaro ‘Veveco’ Hardy, arquitetos hoje já falecidos,

decidem formar um amplo grupo que fundaria as revistas ‘Vão Livre’

e ‘Pampulha’ assim denominada em homenagem à lagoa onde

nos anos 1940s se construiu o notável conjunto de obras projetadas

pelo jovem Oscar Niemeyer, convidado por Juscelino Kubitschek

prefeito da cidade, e futuro governador do estado e presidente do país

que veio com o mesmo arquiteto a construir a capital Brasília.

Pampulha é reconhecidas como ‘berço’ da arquitetura moderna brasileira,

e as obras da Igreja de São Francisco, da Casa do Baile, do Cassino

atual Museu de Arte Moderna e do Iate Clube foram mundialmente

divulgadas e admiradas gerando influências de todos os tipos.

A nova Praça Sete de Setembro

Os arquitetos da equipe 3834 já haviam trabalhado juntos no

‘Projeto Sensações’, proposta inovadora para um hotel-fazenda,

comandada por George Harddy, onde cada unidade de hospedagem

era uma pequena casa projetada por um arquiteto e um artista plástico.

Este projeto foi premiado na 2a Bienal Internacional de Arquitetura em 1993,

em São Paulo com ‘Menção especial pelo conjunto e pluralidade da obra,

o que empolgou o grupo a encarar o projeto conjunto para a Praça Sete.

O  conceito geral e norteador da equipe indicava que a praça deveria

resgatar sua antiga unidade circular através da textura do pavimento central,

da adoção de uma nova vegetação, sinalização e iluminação, e da

restauração do obelisco, elemento simbólico da memória do local.

Estas qualidades seriam também irradiadas nos quatro quarteirões/ruas

anteriormente fechados através da liberação das perspectivas visuais,

da criação de espaços livres, flexíveis e abertos à circulação, pausa e lazer,

da valorização das edificações de interesse histórico e arquitetônico,

do agrupamento racional dos equipamentos e mobiliário urbano,

da manutenção da vegetação de porte e retirada das jardineiras caducas,

da adoção de nova iluminação valorizando a arquitetura das edificações

e trazendo nova sensação de amplitude, bem estar e segurança.

Os quarteirões fechados, que são as áreas de permanência da praça,

onde ocorrem atividades diversas conformam quatro partes distintas, ou

os trechos A e C das Ruas Carijós e os trechos B e D Rio de Janeiro. (Fig. 8)

A equipe liderada por Jason Santa Rosa se ocupou do Mercado das Flores,

Revitalizando-o acoplando ali um ponto de informações culturais e turísticas.

A equipe de Éolo Maia, Jô Vasconcellos e Flávio Grillo projetou o trecho A

propondo  um feixe de vigas metálicas que indicam o centro da praça, e

aparece como suporte da iluminação, mobiliário urbano, banca de revistas,

e aparelhos telefônicos, surgem ainda organicamente pelo espaço da rua

bancos para a permanência das pessoas ao longo dos espaços livres. (fig. 9)

A equipe coordenada por Gustavo Penna trabalhou a topografia do trecho B,

onde na parte superior surge uma espécie de ‘escavação’ que funciona como

um local acolhedor com assentos sob coberta de vidro referenciada (fig. 10)

na caixilharia do edifício vizinho, na parte inferior do trecho está o parlatório

volume proeminente que compensa o cavado superior e aparece como

ponto focal, cívico e político relacionado diretamente com o centro da praça.

O trecho C foi projetado por Álvaro Veveco Hardy e Mariza M. Coelho que

também partiram da topografia da rua para criar a arquibancada longitudinal,

local de estar para transeuntes, vendedores diversos e engraxates, (fig. 11)

protegido por cobertura metálica suportada por longa viga metálica luminosa.

A equipe formada por João Diniz, Graça Moura e Márcia Moreira trabalhou o

trecho D onde na parte superior aparece um conjunto de sete grandes peças

que acoplam bancos a luminárias formando uma espécie de ‘lounge’ urbano

defronte aos edifícios comerciais e tradicional hotel de grande fluxo humano,

há um vazio central destinado ao tráfego local para a garagem do hotel

e na parte inferior está a coberta semi-circular como ponto dos artesãos. (fig. 12)

Estes trechos A, B, C e D da praça posteriormente foram batizados com

os nomes das tribos indígenas nativas e existentes no estado de Minas Gerais,

ou respectivamente: Maxacali, Xacriabá, Krenak e Pataxó.

Os membros da equipe 3834 formada pelos cinco escritórios a principio

discutiram os conceitos norteadores e projetaram conjuntamente os pontos

centrais da Praça Sete de Setembro onde surgiram soluções comuns

a toda a área como os equipamentos comuns e árvores plantadas no anel central,

resgatando o denso anel vegetal das fotografias do passado,

a iluminação principal da parte central, as cercas protetoras em aço inox,

as novas bancas de revistas, as lixeiras, os pontos de telefones públicos,

e o restauro e recomposição do conjunto do obelisco central, o ‘Pirulito’.

Outro ponto de consenso foi o uso geral de materiais robustos o que promoveria

não só  a durabilidade e baixo grau de manutenção das peças,

mas também geraria a auto-estima da população fazendo-a entender

que os espaços públicos não são mais de ninguém, mas de todos.

Os projetos pontuais, trabalhados pelas ‘sub-equipes’ chegaram ao resultado

por elas considerado como ‘fraternalmente diferentes’ gerando uma nova

unidade na Praça Sete permeada pela liberdade e pela pluralidade.

O aço, e as estruturas metálicas, surgem nos quatro trechos como

principal elemento construtivo refletindo característica já existente

na arquitetura contemporânea do estado de Minas Gerais que vem

trabalhando de forma original este material tão ligado a sua geografia,

aos seus recursos naturais e a seu parque industrial e siderúrgico.

Este projeto da Praça Sete de Setembro foi encomendado em 1991

quando foi concebido, e inicialmente apresentado à população e ao

poder publico que o receberam entusiasticamente.

Em 1992 o projeto e seus autores representaram o Brasil no V SAL

Seminários de Arquitetura Latino Americana em Santiago do Chile

Que discorreu sobre os ‘Novos centros urbanos em transformação’.

Desde então os governos municipais e estaduais eleitos,

mesmo sendo de diferentes orientações e partidos políticos,

se interessaram pela execução do projeto, até que em 2003, sob os

governos municipal de Fernando Pimentel e estadual de Aécio Neves,

o projeto foi finalmente detalhado, construído e entregue à população

após mais de 10 anos decorridos de sua concepção inicial.

A cidade atual, acupunturas e irradiações

A partir desta data e da finalização do projeto da Praça Sete de Setembro

o centro da cidade passa a viver uma onda de revitalizações diversas.

A boa aceitação do projeto e a qualidade ambiental por ele emanada

certamente influenciaram na revitalização da Praça da Estação,

da Praça Rui Barbosa, da Serraria Souza Pinto atual centro de eventos,

do Cine Brasil atual centro cultural V & M, da Praça Raul Soares,

do antigo Cine Guarani atual museu Inimá de Paula, e até recentemente,

da transformação da Praça da Liberdade em circuito cultural através

da revitalização de diversos edifícios até então usados pelo governo estadual.

O centro de Belo Horizonte se caracteriza por grande concentração de

edifícios residenciais, diferentemente de outros centros urbanos brasileiros,

a maioria deles construídos nas décadas de 50 a 70 o que confere

caráter mais humano e de animação noturna aos espaços e ruas da área.

Desta forma todas estas intervenções vêem trazendo uma qualificação

a esta zona da cidade que é compartilhada por toda a população.

Até os anos 1980s o centro de Belo Horizonte e de outras cidades brasileiras,

estava ligado à idéia de abandono, degradação ambiental, falta de segurança,

tráfego caótico e até prostituição, e consumo de drogas, o que gerou

uma corrida para os condomínios privados nos arredores urbanos,

a explosão dos shopping centers e da ‘cultura do alarme e da cerca elétrica’.

Esta configuração social isola as elites econômicas da maioria da população

num apartheid cultural que leva a um progressivo confrontamento social.

A partir dos anos 1990s a cidade passa por um inédito alinhamento

dos governos municipal e estadual, anteriormente citados, e que se soma

a uma conscientização da população em torno da valorização da memória,

dos edifícios e locais históricos, do patrimônio eclético e moderno,

dos eventos em espaços públicos, do exercício espacial da democracia,

do respeito às diversas minorias, da acessibilidade e inclusão universal.

Somando-se a estes fatores o século XXI indica a necessidade

da valorização dos centros urbanos como pólos do compartilhamento

de infra-estruturas o que leva as cidades a menores consumos energéticos

numa revisão dos modelos anteriores que negavam uma certa densidade

e pregavam o isolamento idílico e individualista da cidade-jardim.

A revitalização da Praça Sete de Setembro em Belo Horizonte em 2003

pareceu coroar uma nova tomada de posição não só dos governos locais

mas também dos demais setores públicos e privados da sociedade,

e da população em geral rumo a uma  nova abordagem da cidade,

e da participação coletiva e compartilhada das decisões e uso dos espaços.

Muito ainda há que se fazer para abrandar desajustes sociais em termos de

distribuição mais igualitária da renda e do acesso à moradia e ao ensino,

do acesso global às infra-estruturas, saneamento e serviços de saúde,

ao transporte público eficiente e às redes viárias de qualidade.

A lição positiva que a qualificação de um espaço público pode trazer é

a gratidão e apropriação dos espaços pela população, o uso compartilhado,

a identificação e a preservação espontânea destes locais.

Na impossibilidade de resolvermos todos os problemas de uma só vez

estas ações pontuais funcionam, como destacou Jaime Lerner,

como acupunturas urbanas, focos que quando bem trabalhados

emanam energia positiva e vitalidade a todo um urbano corpo circundante.

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