Reflexões sobre a Idade do Aço, por João Diniz

A linha do tempo, as épocas humanas

Estão contadas em voz de fogo e pedra

A palavra metal, de origem grega, significa procurar, sondar

Tangendo milênios de conquistas e descobertas.

Na natureza estão puros o ouro, prata, platina, mercúrio, o cobre

Os demais minérios eram a princípio mistérios oxidados

Como bauxita e hematita que purificados são o alumínio e o ferro.

Na fogueira de 10000 anos atrás o estanho e o chumbo

São os metais macios que prenunciaram a Idade do Cobre

A primeira das idades metálicas que sucedeu a da Pedra Polida.

Nos fornos de 6000 a.C. surgem de cobre ferramentas e armas

E a idéia da metalurgia, na Pérsia, Turquia, Mesopotâmia.

O cobre mais o estanho inauguram a Idade do Bronze em 2000 a.C.

Armaduras, lanças, lutas, Odisséia, Ilíada e guerreiros.

Os dois metais fazem história e em 1500 a.C. começam a faltar.

Inicia-se aí a Idade do Ferro, uma nova etapa, o segundo milênio.

A hematita e a pirita em alta temperatura fazem o ferro

Que não mais vindo só dos meteoros, cruza a Idade Media até

A época gótica, e a renascença nas forjas dos monges e artesãos.

O ferro combinado ao carbono em baixas porcentagens faz o Aço.

E a partir do ferro gusa que é minério de ferro, carvão e calcário

Fundidos em alto forno, iniciamos em 1855 na Inglaterra

A produzir aço em larga escala, começa a Idade do Aço,

A era em que vivemos.

Naqueles meados do século XIX o mundo estava realmente mudando.

Máquinas, estações, indústrias, ferrovias, motores, operários

Reinventavam a história onde o ferro é o principal protagonista.

Os motores e os combustíveis fósseis passam a ser usados em escala,

Os antigos ciclos regenerativos da natureza são rompidos

A vida se transforma com a visão de um progresso ilimitado.

A nova lógica construtiva baseada na economia dos meios

Parece retomar o período gótico (1) e a ênfase na geometria estrutural.

O novo otimismo, deslumbramento e espanto se revelavam

Nas feiras universais, fábricas, pontes e gares ferroviárias

Construindo novas metrópoles, New York, Londres, Berlin

E obras simbólicas, Crystal Palace (2),Torre Eiffel (3), Brooklyn Bridge (4),

Cantado nas odes de Manhattan, de Mayakovski e Lorca

Refletidos nas passagens parisienses do filósofo Benjamin.

Tempos de mudança que chegam ao século XX cheios de força

E inventam a arquitetura moderna eliminando excessos,

Buscando essências, a casa máquina, o espírito novo.

A idéia do Less is More está presente nos projetos de Mies van der Rohe (5)

Numa perspectiva cultural e de industrialização da construção,

E nas obras de Buckminster Fuller (6) numa busca da máxima leveza

E das lições da natureza que podem inspirar o engenho humano.

Legados que vêm sendo interpretados e traduzidos desde então

Por arquitetos e construtores de todas as partes do planeta

No Brasil muitas obras tradicionais já praticavam a estrutura livre:

A oca do índio Xingu (7), as cabanas simples de pau a pique,

As casas em chapa metálica da Amazônia, a arquitetura colonial (8).

Também tivemos nossas primeiras estações em ferro fundido (9),

Ferrovias, indústrias, teatros, grandes vãos, pontes…

A arquitetura moderna brasileira, hábil no uso do concreto armado,

E que deslumbrou o mundo nos meados do século XX,

Teve também obras em aço com conceitos e imagens próprias.

Estruturas metálicas estão presentes na construção de Brasília,

E a partir de então passa para nossa história recente em obras como

As de Niemeyer (10), Lúcio Costa (11), Sérgio Bernardes (12), Éolo Maia (13).

Contemporaneamente o aço ganha força em novas questões,

Num momento em que a Terra se preocupa mais do que nunca

Com sua saúde, futuro, sobrevivência e sustentabilidade,

A construção metálica aparece como alternativa coerente que

Facilita a leveza, o transporte, a desmontagem e a reciclagem.

As jazidas, parques siderúrgicos e uma recente tradição construtiva

Fazem do aço uma importante inspiração para a arquitetura nacional.

Novas experiências e autores notáveis surgem a cada dia

Revelando as múltiplas possibilidades e sistemas do material.

A obra de João Filgueiras Lima, o Lelé (14), é um ótimo exemplo

De como a tecnologia e a cultura brasileira podem dar à atualidade

Uma mostra de sua vitalidade, espírito criativo e ecológico.

O presente e o futuro são mais do que nunca um desafio

Nas diversas possibilidades que assinalam aos arquitetos

Através das responsabilidades que colocam em nossas mãos.

As obras apresentadas no livro Steel Life

São a parte metálica da nossa produção arquitetônica.

Em Minas Gerais o ferro que está nas montanhas,

A produção siderúrgica e o pensamento de diversos profissionais

Acabam por nos contaminar com esta poesia metálica

E gerar oportunidades de trabalho e reflexão.

Os projetos e obras aqui apresentados foram divididos

Em função das relações principais que têm com o aço e seu uso.

Então as EC ou Estruturas Completas são obras que adotam

O metal como elemento único e principal de sustentação

Resultando produto conceitual e esteticamente alinhado a esta opção.

As EH ou Estruturas Híbridas são os projetos que conjugam

A construção metálica à construção em alvenaria

Respondendo às demandas de cada setor dos edifícios.

Nestes casos os elementos em aço estão localizados

Onde as transparências e leveza são mais necessárias.

AC ou Aço Cidadão são as situações onde o aço

Gera situações comunitárias de integração e uso público

Participando como um dos agentes da dinâmica urbana

Ou como delineador do cenário de transformações sociais.

Os AA ou Aços Artísticos são os casos onde o material

Define um objeto, não necessariamente arquitetônico

Mas que participa como elemento escultórico e espacial

Que qualifica com surpresa e cultura determinado ambiente.

Estes projetos e obras respondem a diferentes demandas,

Vindas do cliente particular, podendo ser indivíduo ou empresa,

Ou então solicitações públicas onde uma administração urbana

Gera e contrata uma situação projetual à qual respondemos.

Existem ainda os concursos de arquitetura e pesquisas acadêmicas

Que são situações voluntárias em que nos envolvemos

E podemos investigar elementos ainda não experimentados.

E existem ainda as situações de trabalho em que nos lançamos

Sem nenhuma demanda ou necessidade, pelo prazer de fazer,

Ou pelo amplo significado do ofício que é a Arquitetura,

Ou para simplesmente mantermos acesa a chama

Até que apareça um novo problema que ajudaremos a resolver.

Agora no século XXI, nesta nova etapa da Era do Aço

Num paralelo entre arte e construção de um novo tempo

Devemos recusar a Natureza Morta, ou Still Life

E com este material da contemporaneidade buscar a vida

Nas experiências e trabalhos em curso desta Steel Life.

Texto de apresentação do livro Steel Life: arquiteturas em aço, de João Diniz

Editora JJCarol, São Paulo 2010

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