AS CIDADES VISÍVEIS

As cidades são para o viajante a descoberta de novos mundos, a revelação de outros universos de conhecimentos e dúvidas. O que ficam delas  são impressões fortes e curtas que resumem experiências e sensações. No livro ‘As Cidades Invisíveis’ do italiano Ítalo Calvino, Marco Polo descreve a Kublai Khan as cidades imaginárias de um império desconhecido; enquanto aqui registro flashes (in) conscientes de alguns locais visitados. Quaisquer (des) semelhanças são intencionais.

São Paulo

Reproduzida sobre si mesma reafirma o orgulho da sobrevivência e da pulsação vital entre gentes e máquinas. Um coração brilhou no meio da bruma e descobriu que haviam muitos outros…

Buenos Aires

Um rio pode ser reinventado e trazer à tona as lembranças e as melodias. A melancolia não é real mas uma máscara feliz por traz do baton e da gravata. Quando foi fundada já existia, quando desapareceu continuou muito presente.

Barcelona

As camadas do tempo não cobrem a idéia da invenção e da eternidade presentes no silêncios de guerras e de festas. O mar pode ser reconstruído onde a pedra é macia.

Paris

O verão trouxe finalmente o sentido das flores e do parque como celebração da vitalidade e das cores. Os automóveis parecem não incomodar o respirar dos vivos e o brilho dos telhados.

Prades

O pequeno não é o mínimo e uma feira na praça da igreja aparece como o nascimento de vários gêmeos numa cidade de anciãos.

Couliure

A móvel fronteira permeia o tempo. As conquistas adicionam pedras às montanhas e ao mar. O cavaleiro medieval é um pintor impressionista. A praia e o calor celebram as neves dos picos.

Saint Martin de Canigou

Romaria geográfica ao céu mineral. Pirineus orientais senhores de si e da terra. Na abadia plena o sino medita com o vento. A noite aporta seus odores. O sol e a lua são amantes celibatários.

Firenze

Uma cúpula para proteger o mundo das trevas do passado e dos perigos do futuro. O tempo é para ser cruzado como ponte. Ônibus e motocicletas desfilam em frente aos césares.

San Gimignano

Para que servem as torres senão para tocar o céu e fazer deus mais perto dos olhos. A montanha é a raiz da pedra, a muralha é a geografia humana, o sentido do limite, da defesa e do abraço.

Siena

Uma praça pode ter o tamanho do mundo. Uma torre deslumbra infinitas paisagens toscanas. O labirinto das ruas desembocam nos caminhos que levam a Roma.

New York

Consumação da urbe em todas suas possibilidades. A torre, o parque, a avenida, o sonho da nova natureza, o homem é uma parte do jogo com sua modesta pretensão e sua enorme pequenez.

Rio de Janeiro

A geografia pacifica todas as tensões. A gentileza está no ar apesar de um vento forte. Os calores são vários. Entre a rigidez e a curva prevalecerá a utopia brasileira.

Juiz de Fora

Os tijolos são uma arqueologia recente e sussurram estórias para si mesmos. De tanto passar descobriu-se móvel. Uma poesia paira no ar. A terra natal tem gosto de avós, cheiros de infância

Ouro Preto

Nasceu já com historia e foi desfazendo o mito da metrópole. As riquezas estão em outra dimensão entre as vozes da montanha e os pecados dos altares.

Belo Horizonte

Após os cem anos o tempo passou anti-horário para provar que no próximo século se reencontrará a vitalidade de quem nasce e renasce muitas vezes durante a própria vida.

Niilia

A cidade inexistente será encontrada num dia infinito no calendário do futuro. O que não se viu será a raiz da curiosidade, ponto de partida ao novo, ao desconhecido.

    • Renata Martins
    • 23 julho, 2010

    Que ótimas as impressões, João! Isso faz parte do seu livro? E onde posso encontrá-lo?
    Bjão

    • Renata, obrigado pelo comentário. Este texto está no meu livro de 2002, não neste ultimo, mas é um texto sempre em ‘evolução’.
      Bem-vinda tb aos outros textos deste blog, bjoão.

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