Belo Horizonte sonhada x Belo Horizonte real

Em certa fase do século 20 acreditava-se que no futuro, por volta do ano 2001, as cidades estariam totalmente transformadas. Os cenários da ficção científica eram a referência para as imagens de uma época onde os espaços urbanos substituiriam suas históricas contradições por uma eficiente felicidade idealizada e sonhada como solução formal e humana para as incertezas do porvir.

Existem em nossas mentes, de seres transmilenares que somos, várias imagens, recolhidas dessa historiografia ficcional, onde pequenos veículos aéreos cruzam os céus urbanos como bolhas de vidro e luz com pessoas transportadas neles, ou que de forma mais eficiente, se desmaterializariam em um local surgindo em outro. As construções igualmente apareceriam como máquinas eficientes e funcionais. As mega-estruturas seriam a invenção redentora onde a cidade ganharia a forma de grandes redes artificiais onde qualquer resíduo de uma natureza indomável estivesse distante. Nesse ambiente não existiria lugar para excluídos ou miseráveis, as pessoas em seus trajes geométricos seriam praticamente iguais, belas, alegres, servidas igualmente por estes sistemas de conforto e paz.

Em meu pensamento de criança, esperava o momento em que Belo Horizonte se transformasse nessa figura de cidade ideal alinhada com o futuro, a tecnologia, as boas lembranças e a felicidade.

Ficção brasileira

Ao mesmo tempo era previsível que esse ambiente de projeção temporal chegaria ao Brasil de forma própria uma vez que essas cenas da evolução humana e de seus espaços vinham de uma Hollywood distante, postulados imaginários de uma visualização utópica para um amanhã ideal.

O filme Blade Runner – o caçador de andróides, foi, em minha memória, o primeiro a propor uma modificação do ambiente futurista e esterilizado. As ruas de suas cenas estavam cheias de lama e conflitos. Os ícones do futuro tecnicista estavam lá, mas existia uma multidão de mendigos de etnias periféricas, automóveis antigos, crime, roubo, corrupção.

Nessa película o que os andróides – perfeitos seres humanos artificiais de curta existência – mais queriam era ter uma memória afetiva, um passado que pudesse ser lembrado. Carregavam fotos de desconhecidos, falsos e inexistentes parentes forjando uma herança familiar, como se isso fosse a condição primeira para que alguém fosse humano.

Não me lembro de nenhuma história desse futurismo ficcional que propusesse o que realmente aconteceu em diversas partes ao redor do planeta. Uma das maiores diferenças entre esse tempo ficcional e o tempo real está na idéia de que as pessoas na verdade não são transportadas, mas seus pensamentos, seu trabalho, sua imagem, voz e até seus sentimentos.

Quase toda a parafernália mecanicista daquela cinematografia mental está hoje dentro de um computador pessoal e do telefone celular. As pessoas podem se encontrar no trabalho ou nas ruas, mas a grande parte da comunicação e da produção se dá de forma remota. A palavra “virtual” tem mais sentido hoje que nos tempos da Odisséia no Espaço ou de Flash Gordon.

As cidades acabaram não se transformando no cenário idealizado de um futuro ficcional. Diversas contradições ainda as habitam, as tensões sociais aumentaram, a violência é a maior inimiga, a segurança está atrás de grades e alarmes, o inimigo pode estar ao seu lado e te tomar de assalto explodindo todas as suas esperanças.

BH, nosso lugar no mundo

Belo Horizonte como uma cidade do mundo também assistiu a essas projeções, expectativas e curiosidades. Como cidade planejada, inventada na mente e na prancheta de seus realizadores, talvez guarde uma proximidade maior com a possibilidade de qualquer utopia transformadora.

Irreversivelmente a bordo do século 21 podemos fazer um exercício de entender o que aconteceu, ou o que está acontecendo, uma vez que o tempo flui como um rio e ele nunca é o mesmo porque os dias passam como águas que não voltam.

Em um descontínuo passeio pela cidade nos dias de hoje avistamos ruas cheias, tráfego, buzinas, malabaristas de semáforos, camelôs, táxis, pedintes, e muito mais coisas sob a Serra do Curral. São partes de um cenário conhecido e real. Um visitante estrangeiro talvez estranhasse alguns desses personagens, mas nós, habitantes de BH, os conhecemos bem.

Façamos agora uma leitura de nossa cidade, um exercício de comparação entre dois tempos paralelos em pontos de sua atual paisagem construída, em alguns casos contrapondo realizações distantes em mais de 50 anos de suas respectivas realizações. O primeiro tempo é o tempo da memória, da lembrança de possibilidades descortinadas num passado recente. O segundo tempo é o presente, o ambiente real, materialmente vivo, mas ligado a tempos anteriores como se a cidade fosse o andróide que para se manter vivo tem que guardar e entender a sua história. Um terceiro tempo ficará a cargo de cada um em suas reflexões, conclusões e propostas pessoais.

O Centro como alma

Estamos na praça Sete de Setembro, o coração da cidade, ponto de grande convergência e passagem dos moradores, centro do hipercentro onde foram concluídas em setembro de 2003 obras de requalificação de seu espaço central, e das quatro ruas de pedestres fechadas ao tráfego. Embora faça parte da equipe que elaborou a proposta quero aqui, mais que justificar o projeto, fazer algumas considerações pertinentes ao alcance desta ação.

Certamente o primeiro patrimônio de Belo Horizonte é o seu traçado urbanístico. A ortogonalidade das duas malhas das ruas e avenidas giradas a 45 graus faz de Belo Horizonte um exemplo mundialmente conhecido por esse tipo de urbanismo. Ela é freqüentemente citada ao lado de Washington, nos Estados Unidos, La Plata, na Argentina, e outros projetos de cidades novas do início do século 20. Essa geometria está pousada sobre o relevo montanhoso da Serra do Curral, propondo uma característica do espírito da cidade e de sua gente, onde a racionalidade do projeto se associa à sensualidade da geografia, definindo o caráter pluralista e complementar de sua paisagem urbana e social.

A praça Sete de Setembro é o centro dessa mandala urbana e o projeto de revitalização vem de um concurso nacional de Idéias para o Centro de Belo Horizonte, o BHCentro de 1989, onde três equipes foram premiadas. Uma destas equipes era formada, por uma fusão de escritórios coordenados pelo arquiteto Maurício Andrés, que são os do arquiteto Gustavo Penna; o de Álvaro Hardy e Mariza M. Coelho; o de Jô Vasconcellos e Éolo Maia em associação com Flávio Grillo que foi o coordenador geral do projeto e o meu escritório em associação com as arquitetas Graça Moura e Márcia Moreira.

Dois anos após a realização do concurso BHCentro essa grande equipe foi convidada a elaborar o projeto para a nova praça Sete. Esse projeto de 1991 é o que se inaugurou em 2003, com algumas modificações sugeridas pelas diversas administrações municipais nesses 12 anos, ainda que de diferentes partidos políticos, todas elas empenhadas em implantar o projeto.

Esse pequeno histórico pode sugerir o alcance e a agilidade do poder público em Belo Horizonte em abordar esse tipo de requalificação urbana. É claro que podemos criticar o alcance da intervenção que não transformou profundamente ou radicalmente a praça, mas devemos também entendê-la como a imagem do possível e do viável no presente instante. Uma acupuntura urbana que valoriza um ponto chave criando, através da inserção de um mobiliário diferenciado, um grande estar urbano para a população nos quatro quarteirões fechados e valorizando o obelisco central – ponto focal de toda a composição.

O centro da cidade é o principal valor de nossa consciência e identidade urbana. A qualificação desse espaço focal irradia para toda a cidade a integração entre os habitantes e seus espaços de convívio.

A arquitetura no espelho da cultura – mistérios da fé

Caminhando pela avenida Olegário Maciel tem-se duas construções marcantes e impactantes por sua escala e presença no contexto. Uma delas é o Conjunto JK símbolo de uma utópica experiência habitacional nos anos 50; o outro é o recentemente concluído templo religioso construído nas imediações, A Catedral da Fé, obra que mobilizou grande parte dos melhores fornecedores para a construção civil atualmente existentes na cidade.

Conforme visto durante a obra, no templo foram utilizadas várias das tecnologias de ponta atualmente disponíveis, como estrutura e painéis de fachadas em concreto pré-fabricado, vidros espelhados coloridos, avançados estudos de acústica, instalações, e segurança entre outras.

Paralelamente a esses avanços técnicos a construção apresenta uma imagem historicista e um aspecto clássico, com o seu grande frontão de acesso, suas escadarias frontais, adornos renascentistas fundidos em material plástico, torres encimadas por cúpulas douradas.

Essa fusão de elementos históricos e tecnológicos gera a imagem do templo, relendo numa escala bem maior e impressionante a tradicional forma eclética das igrejas de inspiração neoclássica através do uso dos vários materiais criando uma estética ao mesmo tempo austera e imponente, retrato de uma nova fé que busca atrair e abrigar seus novos fiéis.

O conjunto JK, na contra-esquina diagonal, por sua vez apresenta sua imagem alinhada aos cânones da arquitetura modernista revistos por Niemeyer nos anos 50, ou seja, a simplificação cúbica e o uso de poucos materiais. Essa obra também usou a tecnologia de ponta de sua época e revela em seu programa uma tentativa de criação de um edifício-cidadeonde estariam presentes diversos serviços complementares como residência, abastecimento, lazer, cultura e até um hotel.

Essa utopia estava alinhada com os ideais socialistas do arquiteto e a visão progressista de JK. O edifício hoje está sendo reformado com a substituição de seus brises-soleils e esquadrias mas guardou por muito tempo uma preconceituosa imagem de abandono e de baixa qualidade ambiental. Antes de ser construído, o templo vizinho funcionou em amplo salão no térreo do edifício JK.

A contraposição dos dois tempos nas duas edificações, seus fundamentos ideológicos e culturais e o respectivo resultado espacial de cada uma das propostas nos leva a pensar na descontinuidade da evolução de uma estética construtiva, aos olhos da população, desde a revolução modernista dos anos 40 até os dias de hoje.

O Brasil foi reconhecido como o país que melhor acolheu e produziu arquitetura moderna, chegando a ser foco internacional de interesse. Os princípios dessa nova forma de projetar e construir foram levados aos limites com diversos acertos e equívocos que ainda estão presentes na cultura arquitetônica mundial, passando por revisões e momentos de crise.

Por outro lado podemos constatar que o gosto brasileiro que bem recebeu as novidades modernistas nos meados do século 20 está hoje mais alinhado a uma estética globalizada que é traduzida de acordo com os critérios estéticos e a liberdade de cada um que realiza ou admira as novas obras construídas. Na arquitetura como na música parece existir atualmente uma distância entre o que em um certo momento representou nossa cultura e identidade nacional, como por exemplo Brasília, a Bossa Nova ou a chamada MPB, e o que realmente se constrói e se consome hoje nos diversos cantos do país, nas festas populares, na maioria das estações de rádio e TV.

Adolescência e maturidade

Outro exemplo dessa contraposição de tempos e resultados estilísticos existe entre duas operações de expansão urbana baseadas na criação de novas áreas residenciais nos arredores da cidade. Nos anos 40, a Pampulha surge como projeto de criação de um novo pólo residencial, e de lazer. Em torno da lagoa as construções de um cassino, um clube, uma igreja e uma casa para bailes populares viriam a sinalizar a operação do novo eixo de crescimento da cidade. A história é bem conhecida, o jovem arquiteto Niemeyer, convidado pelo então prefeito JK, projeta os edifícios que deram início à, a partir de então mundialmente divulgada, arquitetura moderna brasileira.

Se compararmos este momento a uma outra operação de expansão urbana em torno de um lago, o condomínio Alphaville – dos anos 90, no vetor sul da cidade, às margens da lagoa dos Ingleses –, veremos que as propostas e resultados são bem diferentes, ainda que as duas aproveitem bem a qualidade visual gerada pela linha horizontal da água.

É lógico, os tempos são outros, a segurança passa a ser o fator mais importante num assentamento desse tipo, o que justifica a quantidade de muros e guaritas que garantem a tranqüilidade dos moradores no Alphaville. Mas se nos detivermos na imagem das construções públicas dos dois empreendimentos somos levados a contrapor a imagem das obras da Pampulha, que passam a ser o símbolo de Belo Horizonte, às construções do outro numa interpretação estilística ligada às tradições espanholas ou mexicanas.

As duas operações urbanas geram assim resultados próprios. A primeira, mais antiga, inclui uma forte dose de intenções vanguardistas e culturais enquanto a segunda prefere um efeito cenográfico importado. Mesmo estando as realizações distantes em mais de mais de 50 anos, a mais tradicional e conservadora é a mais recente.

A lagoa mutante

Esta mesma região da Pampulha sofreu desde sua criação um enorme crescimento mas, de certa forma, manteve sua característica de lugar de ócio e contemplação. Apesar da expansão de sua densidade populacional suas margens são ainda o principal contato da população com um grande espelho d’água. A grande perda ambiental nesses anos foi a diminuição dessa superfície hídrica devido a uma série de assoreamentos e descuidos ambientais chegando a gerar uma grande ilha num dos cantos do lago.

Reconhecendo o valor da região para a identidade urbana, o poder público vem realizando obras na Pampulha que trazem uma nova qualidade ao local através dos projetos dos arquitetos Álvaro Hardy, Mariza M. Coelho e Gustavo Penna. Essas intervenções se baseiam em reforçar a vocação do local de ser área urbana voltada ao lazer e prática de esportes, caminhadas e ciclismo.

Optando por não fazer intervenções de grande impacto construtivo o projeto valoriza as margens do lago através de pistas para pedestres e ciclovia, cria vários locais de esportes e permanência, ao longo de toda a borda da lagoa. Segundo os autores, uma série de reuniões foi feita com os diversos representantes da comunidade local, o que balizou as decisões adotadas.

A área da grande ilha formada pelos assoreamentos será transformada num parque que valorizará as espécies animais e vegetais que ali se instalaram. Alguns equipamentos darão suporte ao funcionamento desse parque.

Essa obra, juntamente com a revitalização da praça Sete, sinaliza a atual preocupação do poder público municipal com áreas de grande significado para a cidade. A simplicidade das intervenções nos dois casos mostra que, mesmo na falta de grandes recursos, algo pode ser feito e que as administração municipais não devem se afastar dos anseios da população buscando criar espaços urbanos afetivos e efetivos.

Miradas e moradas

Existem diversos projetos de interesse público para vários locais da cidade de Belo Horizonte realizados e arquivados em instâncias da administração municipal. Vários deles ainda guardam certamente sua vitalidade e sua necessidade de serem realizados enquanto outras demandas surgem a cada dia, exigindo que novas propostas sejam elaboradas.

A pobreza ambiental de grande parte de nossas cidades se deve ao afastamento progressivo que o Estado vem mantendo dessas questões espaciais após os tempos heróicos da Pampulha e de Brasília. A cidade, a partir de então, fica muito mais sujeita ao jugo comercial e empresarial com o foco principal das novas realizações mais voltado ao lucro do que ao interesse histórico e social de outras épocas. Qualquer tentativa de resgate desse tempo perdido é bem-vinda. Existe atualmente um novo tipo de empresas preocupadas com a responsabilidade social e ambiental, que tem muito a contribuir nessas questões.

É necessário que todos os setores da sociedade reconheçam que o ato de construir modifica, às vezes, irreversivelmente, as paisagens, mas que essa transformação pode se dar de maneira positiva acrescentando qualidade ao ambiente urbano e cultural. Toda ação tem seu sentido simbólico gerando significados e sentimentos diversos.

Existe espaço para todas as estéticas e culturas, mas deve sempre prevalecer a preocupação com o ser humano, com sua identidade, com a sustentabilidade e evolução de sua cultura original, na manutenção de sua memória e nas proposições coerentes e necessárias para o seu futuro.

As melhorias ocorridas em Curitiba, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e outras cidades, e mesmo em outros países, podem nos servir de exemplo e inspiração. A paixão entre habitantes e seus espaços são um sinal da vitalidade de uma cidade, e cabe a todos, poder público, privado e cidadãos agir no sentido que essa estima não seja abalada ou que seja resgatada.

Que não haja espaço para a apatia ou a intolerância. A participação é fundamental. Todas opiniões e críticas são bem-vindas. O debate é fundamental. Todos são responsáveis pela saúde e bom desempenho deste organismo vivo que é a cidade. Belo Horizonte, como uma das principais metrópoles brasileiras, pode e deve manter sua vocação de ser um dos principais centros geradores de idéias e realizações pioneiras.

Nota

1

Artigo publicado originalmente com o título “BH sonhada – BH real” no Jornal O Tempo, Caderno Magazine, Belo Horizonte, 21 de março de 2004.

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